Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito
Uns impetos de vida; outro horizonte,
Tumidas vagas, temporal desfeito,
Quer com elles lutar fronte por fronte.
Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito,
Pelos brodios de Venus de Amathonte;
A existencia entre flôres esquecida
Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos da noite desmaiára a tarde;
Descem ao valle as sombras vergonhosas;
Noite que o céu, por mofa ou por alarde,
Torna propicia ás almas venturosas.
O derradeiro olhar frio e covarde
E umas não sei que strophes lamentosas
Solta o poeta, emquanto a triste Elvira,
Viuva antes de noiva, em vão suspira!
LXIV
Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas;
Tu, curiosidade, o ingrato levas
A ir ver o sol das regiões extranhas.
A ir ver o amor das peregrinas Evas.
Vai, em troco de palmas e façanhas,
Viver na morte, bracejar nas trevas;
Fazendo amor, que é livro aos homens dado,
Copioso almanach namorado.
LXV
Inscreve n'elle a moça de Sevilha,
Longas festas e noites hespanholas,
A indiscreta e diabolica mantilha
Que a fronte cinge a amantes e a carolas.
Quantos encontra corações perfilha,
Faz da bolsa e do amor largas esmolas:
Esquece o antigo amor e a antiga musa
Entre os beijos da lepida andaluza.
LXVI
Canta no seio turgido e macio
Da fogosa, indolente Italiana,
E dorme junto ao laranjal sombrio
Ao som de uma canção napolitana.
Dão-lhe para os serões do ardente estio,
Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana.
Roma adora, embriaga-se em Veneza,
E ama a arte nos braços da belleza.