Vê Londres, vê Paris, terra das ceias,
Feira do amor a toda a bolsa aberta;
No mesmo laço, as bellas como as feias,
Por capricho ou razão, iguaes aperta;
A edade não pergunta ás taças cheias,
Só pede o vinho que o prazer desperta;
Adora as outoniças, como as novas,
Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.
LXVIII
Versos quando os compõe, celebram antes
O alegre vicio que a virtude austera;
Canta os beijos e as noites delirantes,
O esteril gozo que a volupia gera;
Troca a illusão que o seduzia d'antes
Por maior e tristissima chimera;
Ave do céu, entre os osculos creada,
Espalha as plumas brancas pela estrada.
LXIX
Um dia, emfim, cansado e aborrecido,
Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,
Vê um deserto, e do prazer perdido
Resta-lhe unicamente o gosto amargo;
Não achou o ideal appetecido
No longo e profundissimo lethargo:
A vida exhausta em feitos e esplendores,
Se alguma tinha, eram já murchas flôres.
LXX
Ora, uma noite, costeando o Rheno,
Ao luar melancolico,—buscava
Aquelle gozo simples, doce, ameno,
Que á vida toda outr'ora lhe bastava;
Voz remota, cortando o ar sereno,
Em derredor os échos acordava;
Voz aldeã que o largo espaço enchia,
E uma canção de Schiller repetia.
LXXI
«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida!
Porque busquei nos gozos de outra sorte
Esta felicidade appetecida,
Esta resurreição que annulla a morte?
Ó illusão fantastica e perdida!
Ó mal gasto, ardentissimo transporte!
Musa, restaura as apagadas tintas!
Revivei, revivei, chammas extinctas!»