Direi que o nosso Heitor, após o estudo
Da natureza e suas harmonias,
(Oppondo a consciencia um forte escudo
Contra divagações e fantasias);
Depois de ter aprofundado tudo,
Planta, homem, estrellas, noites, dias,
Achou esta lição inesperada:
Veiu a saber que não sabia nada.
LXXVIII
«Nada! exclama um philosopho amarello
Pelas longas vigilias, afastando
Um livro que ha de ver um dia ao prelo
E em cujas folhas ia trabalhando.
Pois eu, doutor de borla e de capello,
Eu que passo os meus dias estudando,
Hei de ler o que escreve penna ousada,
Que a sciencia da vida acaba em nada?»
LXXIX
Aqui convinha intercalar com geito,
Sem pretenção, nem pompa nem barulho,
Uma arrancada apostrophe do peito
Contra as vãs pretenções do nosso orgulho;
Conviria mostrar em todo o effeito
Essa que é dos espiritos entulho,
Sciencia vã, de magnas leis tão rica,
Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.
LXXX
Mas, urgindo acabar este romance,
Deixo em paz o philosopho, e procuro
Dizer do vate o doloroso trance
Quando se achou mais pecco e mais escuro.
Valêra bem n'aquelle triste lance
Um sorriso do céu placido e puro,
Raio do sol eterno da verdade,
Que a vida aquece e alenta a humanidade.
LXXXI
Que! nem ao menos na sciencia havia
Fonte que a eterna sêde lhe matasse?
Nem no amor, nem no seio da poesia
Podia nunca repousar a face;
Atrás d'esse fantasma correria
Sem que jámais as fórmas lhe palpasse?
Seria acaso a sua ingrata sorte
A ventura encontrar nas mãos da morte?