A morte! Heitor pensára alguns momentos
N'essa sombria porta aberta á vida;
Pallido archanjo dos finaes alentos
De alma que o céu deixou desilludida;
Mão que, fechando os olhos somnolentos,
Põe o termo fatal á humana lida;
Templo de gloria ou região do medo,
Morte, quem te arrancára o teu segredo?
LXXXIII
Vasio, inutil, ermo de esperanças
Heitor buscava a noiva ignota e fria,
Que o envolvesse então nas longas tranças
E o conduzisse á camara sombria,
Quando, em meio de pallidas lembranças,
Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia,
Em que cingindo a candida capella
Estava a pertencer-lhe uma donzella.
LXXXIV
Elvira! o casto amor! a esposa amante!
Rosa de uma estação, deixada ao vento!
Riso dos céus! estrella rutilante
Esquecida no azul do firmamento!
Ideal, meteoro de um instante!
Gloria da vida, luz do pensamento!
A gentil, a formosa realidade!
Unica dita e unica verdade!
LXXXV
Ah! porque não ficou calmo e tranquillo
Da ingenua moça nos divinos braços?
Porque fugira ao casto e alegre asylo?
Porque rompêra os mal formados laços?
Quem pudera jámais restituil-o
Aos estreitos, fortissimos abraços
Com que Elvira apertava enternecida
Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?
LXXXVI
Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita;
Tardio pejo lhe enrubece a face;
Punge o remorso; o coração palpita
Como se vida nova o reanimasse;
Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita...
Ah! se o passado alli resuscitasse
Reviverião illusões viçosas,
E a gasta vida rebentara em rosas!