Resolve Heitor voltar ao valle amigo,
Onde ficára a noiva abandonada.
Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo,
E chega emfim á terra desejada.
Sobe o monte, contempla o cedro antigo,
Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchada
Das illusões que um dia concebêra;
Rosa extincta da sua primavera!

LXXXVIII

Era a hora em que os serros do oriente
Formar parecem luminosas urnas;
E abre o sol a pupilla resplendente
Que ás folhas sorve as lagrimas nocturnas;
Frouxa briza amorosa e diligente
Vai acordando as sombras taciturnas;
Surge nos braços d'essa aurora estiva
A alegre natureza rediviva.

LXXXIX

Campa era o mar; o valle estreito berço;
De um lado a morte, do outro lado a vida,
Canto do céu, resumo do universo
Ninho para aquecer a ave abatida.
Inda nas sombras todo o valle immerso,
Não acordára á costumada lida;
Repousava no placido abandono
Da paz tranquilla e do tranquillo somno.

XC

Alto já ia o sol, quando descera
Heitor a opposta face da montanha;
Nada do que deixou desparecêra;
O mesmo rio as mesmas hervas banha.
A casa, como então, garrida e austera,
Do sol nascente a viva luz apanha;
Iguaes flôres, nas plantas renascidas...
Tudo alli falla de perpetuas vidas!

XCI

Desce o poeta cauteloso e lento.
Olha de longe; um vulto ao sol erguia
A veneranda fronte, monumento
De grave e celestial melancolia.
Como sulco de um fundo pensamento
Larga ruga na testa abrir se via,
Era a ruina talvez de uma esperança...
Nos braços tinha uma gentil criança.

XCII