Ja da férvida luta os ais e os gritos
Extinctos eram. Nos baixeis ligeiros
Os tamoyos incolumes embarcam;
Ferem co'os remos as serenas ondas
Até surgirem na remota aldêa.
Atrás ficava, luctuosa e triste,
A nascente cidade brazileira,[7]
Do inopinado assalto espavorida,
Ao céu mandando em côro inuteis vozes.
Vinha já perto rareando a noite,
Alva aurora, que á vida accorda as selvas,
Quando a aldêa surgiu aos olhos torvos
Da expedição nocturna. Á praia saltam
Os vencedores em tropel: transportam
Ás cabanas despojos e vencidos,
E, da vigilia fatigados, buscam
Na curva, leve rede amigo somno,
Excepto o chefe. Oh! esse não dormira
Longas noites, se a troco da victoria
Precisas fossem. Traz comsigo o premio,
O desejado premio. Desmaiada
Conduz nos braços tremulos a moça
Que renegou Tupan, e as rudes crenças[8]
Lavou nas aguas do baptismo santo.
Na rode ornada de amarellas pennas
Brandamente a depõe. Leve tecido
Da captiva gentil as fórmas cobre;
Veste-as de mais a sombra do crepusculo,
Sombra que a tibia luz da alva nascente
De todo não rompeu. Inquieto sangue
Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem
De concentrada raiva triumphante.
Amor talvez lhes lança um leve toque
De ternura, ou já soffrego desejo;
Amor, como elle, asperrimo e selvagem,
Que outro não sente o heroe.

III

Heroe lhe chamam
Quantos o hão visto no fervor da guerra
Medo e morte espalhar entre os contrarios
E avantajar-se nos certeiras golpes
Aos mais fortes da tribu. O arco e a flecha
Desde a infancia os meneia ousado o affouto;
Cedo apprendeu nas solitarias brenhas
A pleitear ás feras o caminho.
A força oppõe á força, a astucia á astucia,
Qual se da onça e da serpente houvera
Colhido as armas. Traz ao collo os dentes
Dos contrarios vencidos. Nem dos annos
O numera supera o das victorias;
Tem no espaçoso rosto a flôr da vida,
A juventude, e goza entre os mais bellos
De real primazia. A cinta e a fronte
Azues, vermelhas plumas alardeam,
Ingenuas galas do gentio inculto.

IV

Da captiva gentil cerrados olhos
Não se entreabrem á luz. Morta parece.
Uma só contracção lhe não perturba
A paz serena do mimoso rosto.
Junto della, cruzados sobre o peito
Os braços, Anagê contempla e espera;
Soffrego espera, em quanto ideias negras
Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe
A mente de projectos tenebrosos.
Tal no cimo do velho Corcovado
Proxima tempestade engloba as nuvens.
Subito ao seio turgido e macio
Anciosas mãos estende; inda palpita
O coração, com desusada força,
Como se a vida toda alli buscasse
Refugio certo e ultimo. Impetuoso
O vestido cristão lhe despedaça,
E á luz já viva da manhã recente
Contempla as nuas fórmas. Era acaso
A syncope chegada ao termo proprio,
Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhas
A desmaiada moça despertára.
Potyra accorda, os olhos lança em torno,
Fita, vê, comprehende, e inquieta busca
Fugir do vencedor ás mãos e ao crime...
Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto
Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe
Angustioso e triste aos labios tremulos,
Sobe, murmura e suffocado expira.
Na rede envolve o corpo, e, desviando
Do terrivel tamoyo os lindos olhos,
Entrecortada prece aos céus envia,
E as faces banha de serenas lagrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silencio
Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte
Pouco a pouco despira o torvo aspecto.
Ao trabalhado espirito, revolto
De mil sinistros pensamentos, volve
Benigna calma. Tal de um rio engrossa
O volume extensissimo das aguas
Que vão enchendo de pavor os ecos,
Vencendo no arruido o vento e o raio,
E pouco a pouco atenuando as vozes,
Adelgaçando as ondas, tornam mansas
Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,
Para tomar nos braços a formosa
Por cujo amor incendiara a aldêa
Daquellas gentes pallidas de Europa.
Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto,
O rosto inda de lagrimas molhado,
Do coração estas palavras solta:
«—Lá entre os meus, suave e amiga morte,
Ah! porque me não deste? Houvera ao menos
Quem escutasse de meus labios frios
A prece derradeira; e a santa benção
Levaria minha alma aos pés do Eterno...
Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a;
Um só allivio imploro. Não receies
Embeber no meu sangue a ervada setta;
Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa
Ter em sagrado leito o ultimo somno!»
Disse, e fitando no indio avidos olhos,
Esperou. Anagê sacode a fronte,
Como se lhe pesara ideia triste;
Crava os olhos no chão; lentas lhe saem
Estas vozes do peito.
«Oh! nunca os padres
Pisado houvessem estas plagas virgens!
Nunca de um deus estranho as leis ignotas
Viessem perturbar as tribos, como
Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto
Os guerreiros pelejam: matam, morrem.
Ante o fulgor das armas inimigas
Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa
Valor nativo e raro em peito livre.
Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas
Nestas mattas vastissimas. De sangue
Extranhos rios hão de, ao mar correndo,
Tristes novas levar á patria delles,
Primeiro que o tamoyo a frente incline
Aos inimigos peitos. Outra força,
Outra e maior nos move a guerra crua;
São elles, são os padres. Esses mostram
Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,
Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;
Ordens não trazem de cacique alheio,
Tudo nos levam, tudo. Uma por uma
As filhas de Tupan correm trás elles,
Com ellas os guerreiros, e com todos
A nossa antiga fé. Vem perto o dia
Em que, na imensidão destes desertos,
Ha de ao frio luar das longas noites
O pagé suspirar sozinho e triste
Sem povo nem Tupan!»

VI

Silenciosas
Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros
Esta lembrança de futuros males.
«—Escuta!» diz Potyra. O indio estende
Imperioso as mãos e assim prossegue:
«—Tambem com elles foste, e foi comtigo
Da minha vida a flôr! Teu pai mandara,
E com ele mandou Tupan que eu fosse
Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres,
Que me perdeu, levando-te consigo.
Não morri; vivi só para esta affronta;
Vivi para esta insolita tristeza
De maldizer teu nome e as graças tuas,
Chorar-te a vida e desejar-te a morte.
Ai! nos rudes combates em que a tribu
Rega de sangue o chão da virgem terra
Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado
Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda,
Mais que o teu coração, ficou deserta.
Duas vezes, mimosas rebentaram
Do lacrimoso cajueiro as flôres,
Desde o dia funesto em que deixaste
A cabana paterna. O extremo lumo
Expirou de teu pai nos olhos tristes;
Piedosa chamma consumiu seus restos,
E a aldêa toda o lastimou com prantos.
Não de todo se foi da nossa vida;
Parte ficou para sentir teus males.
Antes que o ultimo sol á melindrosa
Flôr do maracujá cerrasse as folhas
Um sonho tive. Merencorio vulto,
Triste como uma fronte de vencido,
Cor da lua os cabellos venerandos,
O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),
«Corre á vizinha habitação dos brancos,
«Vai, arranca Potyra á lei funesta
«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;
«Nos braços traze a fugitiva corça;
«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»
«—Impossivel! Que vale um vago sonho?
Sou esposa e christã. Impio, respeita
O amor que Deus protege e sanctifica:
Mata-me; a minha vida te pertence:
Ou, se te pesa derramar o sangue
Daquella a quem amaste, e por quem foste
Lançar entre os christãos a dor e o susto,
Faze-me escrava; servirei contente
Emquanto a vida allumiar meus olhos.
Toma, entrego-te o sangue e a liberdade
Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!»
Calou-se, e reclinada sobre a rede,
Potyra murmurava ignota prece,
Olhos fitos no proximo arvoredo,
Olhos não ermos de profunda magua.

VII