Ó Christo! em que alma penetrou teu nome
Que lhe não désse o balsamo da vida?
Pelo vento dos seculos levado,
Vidente e cego, o maximo dos seres,
Que fora do homem nesta escassa terra,
Se ao mysterio da vida lhe não désses,
Ó Christo! a eterna chave da esperança
Philosophia stoica, ardua virtude,
Creação de homem, tudo passa e expira.
Tu só, filha de Deus, palavra amiga,
Tu, suavissima voz da eternidade,
Tu perduras, tu vales, tu confortas.
Neste sonho iriado de outros sonhos,
Varios como as feições da natureza,
Nesta confusa agitação da vida,
Que alma transpõe a derradeira edade
Farta de algumas passageiras glorias?
Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçam
Essas cansadas rosas da existencia
Que ás vezes tantas lagrimas nos custam,
E tantas mais antes do occaso expiram.
Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias,
Esperança christã, não te ha murchado
O vento arido e secco; és tu viçosa
Quando as da terra languidas inclinam
O seio, e a vida lentamente exhalam.
Esta a consolação ultima e doce
Da esposa indiana foi. Captiva ou morta,
Antevia a celeste recompensa
Que aos humildes reserva a mão do Eterno.
Naquelle rude coração das brenhas
A semente evangelica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro
A peor,—fel-a escrava; e eil-a apparece
Da sua aldea aos olhos espantados
Qual fôra em dias de melhor ventura.
Despida vem das roupas que lhe ha posto
Sobre as polidas fórmas uso extranho,
Não sabido jamais daquelles povos
Que a natureza ingenua doutrinara.
Vence na gentileza ás mais da tribu,
E tem de sobra um sentimento novo,
Pudor de esposa e de christã,—realce
Que ao indio accende a natural volupia.
Simulada alegria lhe descerra
Os labios; riso á flôr, escasso e dubio,
Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas.
Á voz do seu senhor accorre humilde;
Não a assusta o labor; nem dos perigos
Conhece os medos. Nas ruidosas festas,
Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9]
Pocema de alegria ou de combate,
Como que se lhe fecha a flôr do rosto.
Ja lhe descae então no seio oppresso
A graciosa fronte; os olhos fecha,
E ao céu voltando o pensamento puro,
Menos por si, que pelos outros pede.
Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito;
Lacera-lh'o tambem agra saudade;
Chora a separação do amado esposo,
Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme.
Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos,
Não já crueis, mas cubiçosos della,
Entra desatinada o bosque antigo,
E a dor expande em lobregos soluços,
Co'o doce nome accorda ao longe os écos,
Farta de amor e prodiga de vida,
Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas.
Outras vezes pisando a ruiva areia
Das praias, ou galgando a penedia
Cujos pés orla o mar de nivea espuma,
As ondas murmurantes interroga;
Conta ao vento da noite as dores suas;
Mas... fieis ao destino e á lei que as rege,
As preguiçosas ondas vão caminho,
Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes,
Com seus arcos, os destros caçadores,
E alguns da rija estaca desatando
Os nós de embira ás rapidas igaras,
A pesca vão pelas ribeiras proximas,
Das esposas, das mães que os lares velam,
Grata alegria os corações innunda,
Menos o della, que suspira e geme,
E não aguarda doce esposo ou filho.
Triste os vê na partida e no regresso,
E nessa melancholica postura,
Simelha a acacia langue e esmorecida,
Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.
As outras...—Raro em labios de felizes
Alheias maguas travam. Não se pejam
De seus olhos azuis e alegres pennas
Os sahis sobre as arvores pousados,
Se ao perto voa na campina verde
De anuns luctuoso bando; nem os trillos
Das andorinhas interrompe a nota
Que a jurity suspira.—As outras folgam
Pelo arraial dispersas; vão-se á terra
Arrancar as raizes nutritivas,
E fazem os preparos do banquete
A que hão de vir mais tarde os destemidos
Senhores do arco, alegres vencedores
De quanto vive na agua e na floresta.
Da captiva nenhuma inquire as maguas.
Comtudo, algumas vezes, curiosas
Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:
—«Pois que á taba voltaste, em que teus olhos
Primeiro viram luz, que magua funda
Lhes distilla tão longo e amargo pranto,
Amargo mais do que esse que não busca
Recatado silencio?»—E ás doces vozes
A christã desterrada assim responde:
—«Potyra é como aquella flôr que chora
Lagrimas de alvo leite, se do galho
Mão cruel a cortou. Oh! não permitta
O céu que ímpia fortuna vos separe
Daquelle que escolherdes. Dor é essa
Maior que um pobre coração de esposa.
Esperanças... Deixei-as nessas aguas
Que me trouxeram, complices do crime,
Á taba de Tupan, não allumiada
Da palavra celeste. Algumas vezes,
Raras, alveja em minha noite escura
Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso
O sol que vem me guarda um raio amigo,
Que hade accender nestes cansados olhos
Ventura que já foi. As asas colhe
Guanumby, e o aguçado bico embebe
No tronco, onde repousa adormecido
Até que volte uma estação de flôres.[10]
Ventura imita o guanumby dos campos:
Accordará co'as flôres de outros dias.
Doce illusão que rapido se escoa,
Como o pingo de orvalho mal fechado
N'uma folha que o vento agita e entorna.»
E as virgens dizem, apiedando o gesto:
—«Potyra é como aquella flôr que chora
«Lagrimas de alvo leite, se do galho
«Mão cruel a cortou!»

X

Era chegado
O fatal prazo, o desenlace triste.
Tudo morre,—a tristeza como o gozo;
Rosas de amor ou lyrios de saudade,
Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.
Costeando as longas praias, ou transpondo
Extensos valles e montanhas, correm
Mensageiros que ás tabas mais vizinhas
Vão convidar á festa as gentes todas.
Era a festa da morte. Indio guerreiro,
Trez luas ha captivo, o instante aguarda
Em que ás mãos de inimigos vencedores,
Cáia expirante, e os vinculos rompendo
Da vida, a alma remonte além dos Andes.
Corre de boca em boca e de eco em eco
A alegre nova. Vem descendo os montes,
Ou abicando ás povoadas praias
Gente da raça illustre. A onda immensa
Pelo arraial se estende pressurosa.
De quantas côres natureza fertil
Tinge as proprias feições, copiam elles
Engraçadas, vistosas louçanias.
Vários na edade são, varios no aspecto,
Todos iguais e irmãos no herdado brio.
Dado o amplexo de amigo, acompanhado
De suspiros e pesames sinceros
Pelas fadigas da viagem longa,
Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo
Deu o Ibake os segredos da poesia;
Cantos festivos, moduladas vozes,
Enchem os ares, celebrando a festa
Do sacrificio proximo. Ah! não cubra
Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos
Destes polidos tempos! Rudes eram
Aquelles homens de asperos costumes,
Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,
E nós, soberbos filhos de outra edade,
Que a voz fallamos da razão severa
E na luz nos banhamos do Calvario,
Que somos nós mais que elles? Raça triste
De Cains, raça eterna...

XI

Os cantos cessam.
Calou-se o maracá. As roucas vozes
Dos férvidos guerreiros já reclamam
O brutal sacrificio. Ás mãos das servas
A taça do cauim passara exhausta.
Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.
Da nação guayanaz nos rudes campos
Nasceu. Nos campos da saudosa patria
Industriosa mão não sabe ainda
Alevantar as tabas. Cova funda
Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11]
Os acolhe e protege. O chão lhes forra
A pele do tapir; continua chamma
Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo
Do guayanaz que chega a extrema edade,
Ou de mortal doença accomettido,
Não expirar aos olhos de outros homens;
Vivo o guardam no bojo da igaçaba,
E á fria terra o dão, como se fôra
Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.
Do almo, doce licor que extrai das flôres
Mãe do mel, iramaya, larga cópia
Pelos robustos membros lhe coaram
Seis anciãs da tribu. Rubras pennas
Na vasta fronte e nos nervosos braços
Garridamente o enfeitam. Longa e forte
A mussuranna os rins lhe cinge e aperta.
Entra na praça o funebre cortejo.
Olhar tranquillo, inda que fero, espalha
O indomado captivo. Em pé, defronte,
Grave, silencioso, ao sol mostrando
De feias cores e vistosas plumas
Singular harmonia, aguarda a victima
O executor. Nas mãos lhe pende a enorme
Tagapema enfeitada, arma certeira,
Arma triumphal de morte e de exterminio.
Medem-se rosto a rosto os dois contrarios
C'um sorriso feroz. Confusas vozes
Enchem subito o espaço. Não lhe é dado
Ao vencido guerreiro haver a morte
Silenciosa e triste em que se passa
Da curva rede á fria sepultura.
Meigas aves que vão de um clima a outro
Abrem placidamente as asas leves,
Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,
Tu combate! Vencido e vencedores
Derradeiros escarneos se arremessam;
Gritos, injurias, convulsões de raiva,
Vivo clamor accorda os longos ecos
Das penedias proximas. A clava
Do executor girou no ar trez vezes
E de leve caiu na grossa espadua
Do arquejante captivo. Já na boca,
Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem,
Orla de espuma alveja. Avança, corre,
Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço
A mussurana, cujas pontas tiram
Dois mancebos robustos. Nas cavernas
Do longo peito lhe murmura o odio,
Surdo, como o rumor da terra inquieta,
Pejada de vulcões. Os labios morde,
E, como derradeira injuria, á face
Do executor lhe cospe espuma e sangue.
Não vibra o arco mais veloz o tiro,
Nem mais segura no aterrado cervo
Feroz succuriuba os nós enrosca,
Do que a pesada, enorme tagapema
A cabeça de um golpe lhe esmigalha.
Cae fulminada a vitima na terra,
E alegre o povo longamente applaude.

XII