Na voz universal perdeu-se um grito
De piedade e terror: tão fundo entrára
Naquella alma roubada á noite escura
Raio de sol christão! Potyra foge,
Pelos bosques atonita se entranha
E pára á margem de um pequeno rio;
Pousa na relva os tremulos joelhos
E nas mimosas mãos esconde o rosto.
Não de lagrimas era aquelle sitio
Ou só de doces lagrimas choradas
De olhos que amor venceu:—macia relva,
Leito de sesta a amores fugitivos.
Da verde, rara abobada de folhas
Tepida e doce a luz coava a frouxo
Do sol, que, além das arvores, tranquillo,
Metade da jornada ia transpondo.
Longe era ainda a hora melancholica
Em que a geremma cerra a miuda folha,
E o lume azul o pyrilampo accende.
De pé, a um velho tronco descoroado
Da copada ramagem, resto apenas,
Vestigio do tufão, a indiana moça
Languidamente encosta o esbelto corpo.
Neste ameno recesso tudo é triste,
Porque é alegre tudo. Não mui longe
Um desfolhado ipê conserva e guarda
Flôres que lhe ficaram de outro estio,
Como esperança de folhagem nova,
Flôres que a desventura lhe ha negado,
A ella, alma esquecida nesta terra,
Que nada espera da estação vindoura.
Olha, e de inveja o coração lhe estalla.
Pelo tronco das arvores se enroscam
Parasitas, esposas do arvoredo,
Mais fieis não, mais venturosas que ella.
Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,
Mais que descanço, perduravel gozo,
Que a nossa eterna patria aos infelizes
Deste desterro guarda alvas capellas
De não-murchandas e cheirosas flôres.
Tal lhe falava no intimo do peito
Desespero cruel. Alguns instantes
Pela cansada mente lhe vagaram
De voluntaria, abreviada morte,
Luctuosas ideias. Mal comprehende
Esses desmaios da creatura humana
Quem não sentiu no coração rasgado
Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto,
Esse contraste immenso e irreparavel
Do amor interno e a solidão da vida.
Rapido espaço foi. Prompto lhe volve
Doce resignação, christã virtude,
Que desafia e que assoberba os males.
As debeis mãos levanta. Já dos labios
Solta nas azas de oração singella
Lastimas suas... Na folhagem secca
Ouve de cautos pés rumor sumido,
Volve a cabeça...
XIII
Tremulo, calado,
Anagê crava n'ella os olhos turvos
Dos vapores da festa. As mãos inermes
Lhe pendem; mas o peito—ó misera!—esse,
Esse de mal contido amor transborda.
Longo instante passou. Alfim: «Deixaste
A festa nossa (o barbaro murmura);
Mysteriosa vieste. Dos guerreiros
Nenhum te viu; mas eu senti teus passos,
E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha,
Inutil foges; gavião te espreita,[12]
Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo,
Escutava Potyra a voz severa
De Anagê. Breve espaço abria entre ambos
Alcatifado chão. A fatal hora
Chegara alfim? Não o perscruta a moça;
Tudo acceita das mãos do seu destino,
Tudo, excepto... No proximo arvoredo
Ouve de uma ave o pio melancholico;
Era a voz de seu pae? a voz do esposo?
De ambos talvez. No animo da escrava
Restos havia dessa crença antiga
Antiga e sempre nova: o peito humano
Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
—«Nasceste para ser senhora e dona:
Anagê não te veda a liberdade;
Quebra tu mesma os nós do captiveiro.
Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;
Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,
Adornada por ti, será mais nobre;
Mais forte o braço em que pousar teu rosto.
Sou menos bello que esse esposo ausente?
Rudes feições compensa amor sobejo.
Vem; ver-me-has companheira nos combates,
E, se inimiga frecha entrar meu seio,
Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?
Outro destino escolhe. Cauteloso,
Tece o japú nos elevados ramos
Das elevadas arvores o ninho,
Onde o inimigo lhe não roube a prole.
Ninho ha na serra ao nosso amor propicio;
Viveremos alli. Troveje em baixo
A inubia convidando a guerra os povos;
Leva de arcos transforme estas aldêas
Em campos de combate,—ou já dispersas
As fugitivas tribus vão buscando
Longes sertões para chorar seus males,
Viveremos alli. Talvez, um dia,
Quando eu passar á mysteriosa estancia
Das delicias eternas, me pergunte
Meu velho pai:—«Teu arco de guerreiro
Em que deserta praia o abandonaste?
Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»
XV
Doce era a voz e triste. Rasos d'agua
Os olhos. Foi desmaio de tristeza
Que o gesto dissipou da esquiva moça.
Volve ao Tamoyo vingativa ideia.
—«Minha (diz elle) ou morres!» Estremece
Potyra, como quando a brisa passa
Ao de leve na folha da palmeira,
E logo fria ao barbaro responde:
—«Jaz esquecido em nossas velhas tabas
O respeito da esposa? Acaso é digna
Do sangue do Tamoyo esta ameaça?
Que desvalia aos olhos teus me coube,
Se a outro me ligaram natureza,
Religião, destino? A liberdade
Nas tuas mãos depuz; com ella a vida.
É tudo, quasi tudo. Honra de esposa,
Oh! essa deves respeital-a! Vai-te!
Ceva teu odio nas sangrentas carnes
Do prostrado captivo. Aqui chorando,
Na solidão d'estes bosques mal fechados,
As maviosas brisas meus suspiros
Entregarei; leval-os-hão nas azas
La onde geme solitario o esposo.
Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto,
Alçou a Deus o pensamento amante,
Como a centelha viva que a fogueira
Extincta aos ares sobe. Immovel, muda,
Longo tempo ficou. Diante d'ella,
Como ella immovel, o tamoyo estava.
Amor, odio, ciume, orgulho, pena,
Oppostos sentimentos se combatem
No attribulado peito. Generoso
Era, mas não domado amor lhe dava
Inspiração de crimes. Não mais prompto
Cae sobre a triste corça fugitiva
Jaguar de longa fome esporeado,
Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronte
Da misera Potyra. Ai! não, não diga
A minha voz o lamentoso instante
Em que ella, ao seu algoz volvendo anciosa
Turvos olhos: «Perdoo-te!» murmura,
Os labios cerra e immaculada expira!
XVI
Estro maior teu nome obscuro cante,
Moça christã das solidões antigas,
E eterno o cinja de virentes flôres,
Que as mereces. De não sabido bardo
Estes gemidos são. Languidas brisas
No taquaral á noite sussurrando,
Ou enrugando o molle dorso ás vagas,
Não tem a voz com que domina os echos
Despenhada cachoeira. São, comtudo,
Mas que debeis e tristes, no concerto
Da orquestra universal cabidas notas.
Alveja a nebulosa entre as estrellas,
E abre ao pé do rosal a flôr da murta.