III

«—Traze a minha lança, escravo,
Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavallo
Que largos campos correu.»
«—Lança tens e tens cavallo
Que meu velho pae te deu;
Mas aonde te vás agora
Onde vais, esposo meu?»
«—Vou-me á caça, junto á cova
Onde a onça se metteu...»
«—Montada no meu cavallo,
Vou comtigo, esposo meu.»
«—Vou-me ás ribas do Escopil,
Que a minha lança varreu...»
«—Irei pelejar na guerra,
A teu lado, esposo meu.»
«—Fica-te ahi na cabana
Onde o meu amor nasceu.»
«—Melhor não haver nascido
Se já de todo morreu.»
E uma lagrima,—a primeira
De muitas que ella verteu,—
Pela face cobreada
Lenta, lenta lhe correu.
Enxugal-a, não a enxuga
O esposo que já perdeu,
Que elle no chão fita os olhos,
Como que a voz lhe morreu.
Traz o escravo o seu cavallo
Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma,
Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
Á esposa lhe respondeu:
«—A bocayuva trez vezes
No tronco amadureceu,[17]
Desde o dia em que o guerreiro
Sua esposa recebeu.»
«Trez vezes! Amor sobejo
Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
Fastio que me perdeu.»
E pulando no cavallo,
Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
Chora o amor que lhe morreu!

IV

Leva o Paraguay as aguas,
Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
Como usavam de descer.
Tenras flôres, que outro tempo
Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de egual vida;
Morrem do mesmo morrer.
Niani, pobre viuva,
Viuva sem bem o ser,
Tanta lagrima chorada
Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiára
De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
Como que vão fenecer.
Corpo que fôra robusto
No seu cavallo a correr,
De continua dor quebrado
Mal se póde já suster.
Collar de prata não usa,
Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
Todas as veiu a romper.[18]
Que ella, se nada ha mudado
Daquelle eterno viver,
Com que a natureza sabe
Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre,
Mas de um continuo morrer,
E não ha magua mais triste
De quantas podem doer.
Os que out'rora a desejavam,
Antes della mal haver,
Vendo que chora e padece,
Rindo se põem a dizer:
«—Remador vai na canoa,
Canoa vae a descer...
Piranha espiou do fundo
Piranha, que o vae comer.
Ninguem se fie da braza
Que os olhos veem arder,
Sereno que cae de noite
Ha de fazel-a morrer.
Panenioxe, Panenioxe,
Não lhe sabias querer.
Quem te pagára esse golpe
Que lhe vieste fazer!»

V

Um dia,—era sobre tarde,
Ia-se o sol a afundar;
Calumby cerrava as folhas
Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe
E á porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
Como a noite sem luar.
Chega-se á pobre da moça
E assim começa a falar:
«—Guaycurú dói-lhe no peito
Tristeza de envergonhar.
Esposo que te ha fugido
Hoje se vae a casar;
Noiva não é de alto sangue,
Porém de sangue vulgar.»
Ergue-se a moça de um pulo,
Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faisca
Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha
Acerta de ali passar;
Niani attentando nelle
Chama-o para o seu logar.
«—Cativo és tu; serás livre,
Mas vaes o nome trocar;
Nome avesso te pozeram...
Panenioxe has de ficar.»
Pela face cobreada
Desce, desce com vagar
Uma lagrima: era a ultima
Que lhe restava chorar.
Longo tempo alli ficára,
Sem se mover nem fallar;
Os que a veem naquella magoa
Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro,
E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
E ennegrecia-se o ar.
Pintam-n'a de vivas cores,
E lhe lançam um collar;[19]
Em fina esteira de junco
Logo a vão amortalhar.
O triste pae suspirando
Nos braços a vae tomar,
Deita-a sobre o seu cavallo
E a leva para enterrar.
Na terra em que dorme agora
Justo lhe era descançar,
Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.
Que assim se morre de amores
Aonde habita o jaguar,
Como as princesas morriam
Pelas terras de além-mar.


[A CHRISTÃ NOVA]

...essa mesma foi levada
captiva para uma terra estranha.

NAUM, cap. III, v. 10