PARTE I

I

Olhos fitos no céu, sentado á porta,
O velho pae estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria,
Como a nevoa na encosta da montanha
Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,
E silenciosa: a praia era deserta,
Ouvia-se o bater pausado e longo
Da somnolenta vaga,—unico e triste
Som que a mudez quebrava á natureza.

II

Assim talvez nas solidões sombrias
Da velha Palestina
Um propheta no espirito volvera
As desgraças da patria. Quão remota
Aquella de seus paes sagrada terra,
Quão differente desta em que ha vivido
Os seus dias melhores! Vago e doce,
Este luar não allumia os serros
Estereis, nem as ultimas ruinas,
Nem as ermas planicies, nem aquelle
Morno silencio da região que fôra
E que a historia de todo amortalhára.
Ó torrentes antigas! aguas santas
De Cedron! Já talvez o sol que passa,
E vê nascer e vê morrer as flôres,
Todas no leito vos seccou, em quanto
Estas murmuram placidas e cheias,
E vão contando ás deleitosas praias
Esperanças futuras. Longo e longo
O devolver dos seculos
Será, primeiro que a memoria do homem
Teça a mortalha fria
Da região que inda tinge o albor da aurora.

III

Talvez, talvez no espirito fechado
Do ancião vagueavam lentamente
Estas ideias tristes. Junto á praia
Era a austera mansão, donde se via
Desenrolarem-se as serenas vagas
Do nosso golpho azul. Não a enfeitavam
As galas da opulencia, nem os olhos
Entristecia co'o medonho aspecto
Da miseria; não pródiga nem surda
A fortuna lhe fora, mas aquella
Mediana sobria, que os desejos
Contenta do philosopho, lhe havia
Doirado os tectos. Guanabara ainda
Não era a flôr aberta
Da nossa edade; era botão apenas,
Que rompia do hastil, nascido á beira
De suas ondas mansas. Simples e rude,
Ia brotando a juvenil cidade,
Nestas incultas terras, que a lembrança
Recordava talvez do antigo povo,
E o guáu alegre, e as rispidas pelejas,
Toda essa vida que morreu.

IV

Sentada
Aos pés do velho estava a amada filha,
Bella como a açucena dos Cantares,
Como a rosa dos campos. A cabeça
Nos joelhos do pae reclina a moça,
E deixa resvalar o pensamento
Rio abaixo das longas esperanças
E namorados sonhos. Negros olhos
Por entre os mal fechados
Cilios estende á serra que recorta
Ao longe o céu. Morena é a face linda
E levemente pallida. Mais bella,
Nem mais suave era a formosa Ruth
Ante o rico Booz, do que essa virgem,
Flôr que Israel brotou do antigo tronco,
Corada ao sol da juvenil America.

V