Mudos viam correr aquellas horas
Da noite, os dous: ele voltando o rosto
Ao passado, ella os olhos ao futuro.
Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas
De ir voando, atravez da espessa treva,
Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo
Da realidade. A delicada virgem
Primeiro volve a si; os lindos dedos
Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E: «—Pae amigo, que pensar vos leva
Tão longe a alma?» Estremecendo o velho.
«—Curiosa!—lhe disse,—o pensamento
E como as aves passageiras: voa
A buscar melhor clima.—Opposto rumo
Ias tu, alma em flôr, aberta apenas,
Tão longe ainda do calor da sesta,
Tão remota da noite... Uma esperança
Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,
Uns namorados olhos que me roubem,
Que te levem... Não córes, filha minha!
Esquecimento, não; lembrança ao menos
Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia,
Quando eu na terra descansar meus ossos,
Haverás doce balsamo no seio
Da affeição juvenil... Sim; não te accuso;
Ama: é a lei da natureza, eterna!
Ama: um homem será da nossa raça...»
VI
Estas palavras taes ouvindo a moça,
Turbada os olhos descaiu na terra,
E algum tempo ficou calada e triste,
Como no azul do céu o astro da noite,
Se uma nuvem lhe empana a meio a face.
Subito a voz e o rosto alevantando,
Com dissimulação,—peccado embora,
Mas innocente:—«Olhai, a noite é linda!
O vento encrespa mollemente as ondas,
E o céu é todo azul e todo estrelas!
Formosa, oh! quão formosa a terra minha!
Dizei: além desses compridos serros,
Além daquelle mar, á orla de outros,
Outras como esta vivem?»
VII
Fresca e pura
Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia
Entrar no coração paterno. A fronte
Inclina o velho sobre o rosto amado
De Angela.—Na cabeça osculo santo
Imprime á filha; e suspirando, os olhos
Melancholicamente ao ar levanta,
Desce-os e assim murmura:
«Vaso é digno de ti, lyrio dos vales,
Terra solene e bella. A natureza
Aqui pomposa, compassiva e grande,
No regaço recebe a alma que chora
E o coração que tumido suspira.
Comtudo, a sombra pesarosa e errante
Do povo que acabou pranteia ainda
Ao longo das areias,
Onde o mar bate, ou no cerrado bosque
Inda povoado das reliquias suas,
Que o nome de Tupan confessar podem
No proprio templo augusto. Ultima e forte
Consolação é esta do vencido
Que viu tudo perder-se no passado,
E unico salva do naufragio imenso
O seu Deus. Patria não. Uma ha na terra
Que eu nunca vi... Hoje é ruina tudo,
E viuvez e morte. Um tempo, emtanto,
Bella e forte ella foi; mas longe, longe
Os dias vão da fortaleza e gloria
Escoados de todo como as aguas
Que não volvem jamais. Oleo que a unge,
Finas telas que a vestem, atavios
De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,
E a flôr de trigo e mel de que se nutre,
Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20]
Jerusalem! Oh! quem lhe dera os dias
Da passada grandeza, quando a planta
Da senhora das gentes sobre o peito
Pousava dos vencidos, quando o nome
Do que ha salvo Israel, Moysés...»
«—Não! Christo,
Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!»
Isto dizendo, a delicada virgem
As mãos postas ergueu. Uma palavra
Não disse mais; no coração, emtanto,
Murmurava uma prece silenciosa,
Ardente e viva, como a fé que a anima
Ou como a luz da lampada
A que não faltou oleo.
VIII
Taciturno
Esteve longo tempo o ancião. Aquella
Alma infeliz nem toda era de Christo
Nem toda de Moyses; ouvia attento
A palavra da Lei, como nos dias
Do eleito povo; mas a doce nota
Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito,
Solemnissima e pura... Descambava
No entanto a lua. A noite era mais linda,
E mais augusta a solidão. Na alcova
Entre a pallida moça. Da parede
Um Christo pende; ela os joelhos dobra,
Os dedos cruza e reza,—não serena,
Nem alegre tambem, como costuma,
Mas a tremer-lhe nos formosos olhos
Uma lagrima.
IX
A lampada accendida
Sobre a meza do velho, as largas folhas
Allumia de um livro. O maximo era
Dos livros todos. A escolhida lauda
Era a do canto dos captivos que iam
Pelas ribas do Euphrates, relembrando
As desgraças da patria. A sós, com elles,
Suspira o velho aquelle psalmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada
De Babylonia, um dia nos sentamos,
Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos,
E ao relembrarmos os extintos dias
As lagrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias
De captiveiro, alli nos perguntavam
Pelas nossas antigas harmonias.
E diziamos nós aos que fallavam:
«Como em terra de exilio amargo e duro
Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»
Jerusalem, se inda n'um sol futuro,
Eu desviar de ti meu pensamento
E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha dextra a frio esquecimento
Votada seja; apegue-se á garganta
Esta lingua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e santa
Jerusalem não for minha alegria
Melhor no meio de miseria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia
Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros
Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros
Arrazemol-os todos; só lhe baste
Um montão de destroços mal seguros.
Filha de Babylonia, que peccaste,
Abençoado o que se houver comtigo
Com a mesma oppressão que nos mostraste!
Abençoado o barbaro inimigo
Que os tenros filhos teus ás mãos tomando,
Os for, por teu justissimo castigo,
Contra um duro penedo esmigalhando!