PARTE II
I
Era naquella doce e amavel hora
Em que vem branqueando a alva celeste,
Quando parece que remoça a vida
E toda se espreguiça a natureza.
Alva neblina que espalhara a noite
Frouxamente nos ares se dissolve,
Como de uns olhos tristes
Foge co'o tempo a já ligeira sombra
De consoladas maguas. Vida é tudo.
E pompa e graça natural da terra,
Mas que não seja no ermo,
Onde seus olhos rutilos espraia
Livres a aurora, sem tocar vestigios
De obras caducas do homem, onde as aguas
Do rio bebe a fugitiva corça,
Vivo aroma nos ares se difunde,
E aves, e aves de infinitas cores
Voando vão e revoando tornam,
Inda senhoras da amplidão que é sua,
Donde as hade fugir o homem um dia
Quando a agreste solidão entrar o passo
Creador que derruba. Já de todo
Nado era o sol; e á viva luz que innunda
Estes meus patrios morros e estas praias,
Sorrindo a terra moça
Noiva parece que o virgineo seio
Entrega ao beijo nupcial do amado.
E hade os funebres véus lançar a morte
Na verdura do campo? A natureza
A nota vibrará da extrema angustia
Neste festivo cantico de graças
Ao sol que nasce, ao Creador que o envia,
Como renovação de juventude?
II
Coava o sol pela miuda e fina
Gelosia da alcova em que se apresta
A recente christã. Singelas roupas
Traja da ingenua cor que a natureza
Pintou nas plumas que primeiro brota
O seu patrio guará. Vinculo frouxo
Mal lhe segura a luzidia trança,
Como ao desdem lançada
Sôbre a espadua gentil. Joia nenhuma,
Mais que seus olhos meigos, e essa doce
Modestia natural, encanto, enlevo,
Casta flôr que aborrece os mimos do horto,
E ama livre nascer no campo, á larga,
Rustica, mas formosa. Não lhe ensombram
As tristezas da vespera o semblante,
Nem da secreta lagrima na face
Ficou vestigio.—Descuidosa e alegre,
Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,
E repete baixinho um nome... Oh! se elle
Espreital-a pudesse ali risonha,
A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôres
Colhidas ao tombar da extincta noite,
E vecejantes inda!
III
De repente,
Aos ouvidos da moça enamorada
Chega um surdo rumor de soltas vozes,
Que ora crescendo vae, ora se apaga,
Extranho, desusado. Eram... São elles,
Os francezes, que vem de longes praias
A cobiçar a perola mimosa,
Nictheroy, na alva-azul concha nascida
De suas aguas recatadas. Rege
O atrevido Duclerc a flôr dos nobres,
Cuja tez branca requeimára o fogo
Que o vivo sol dos tropicos dardeja,
E a lufada dos ventos do oceano.
Cobiçam-te elles, minha terra amada,
Como quando nas faixas sempre-verdes
Eras envolta; e rude, inda que bello,
O aspecto havias que poliu mais tarde
A clara mão do tempo. Inda repetem
Os ecos do reconcavo os suspiros
Dos que vieram a buscar a morte,
E a receberam dos varões possantes
Companheiros de Estacio. A todos elles,
Prole de Luso ou geração da Gallia,
Captivara-os a nayade escondida,
E o sol os viu travados nessa longa
E sangrenta porfia, cujo premio
Era teu verde, candido regaço.
Triunphára o trabuco lusitano
Naquele exticnto seculo. Vencido,
O pavilhão francez volvera á patria,
Pela agua arrastando o longo crepe
De suas tristes, mortas esperanças.
Que vento novo o desfraldou nos ares?
IV
Angela ouvira as vozes da cidade,
As vozes do furor. Já receiosa,
Tremula, foge á alcova e se encaminha
Á camera paterna. Ia transpondo
A franqueada porta... e pára. O peito
Rompe-lh'o quasi o coração,—tamanho
É o palpitar, um palpitar de gosto,
De sorpresa e de susto. Aquelles olhos,
Aquella graça mascula do gesto,
Graça e olhos são delle, o amado noivo,
Que entre os mais homens elegeu sua alma
Para o vínculo eterno... Sim, que a morte
Póde arrancar ao seio humano o alento
Ultimo e derradeiro; os que deveras
Unidos foram, volverão unidos
A mergulhar na eternidade. Estava
Junto do velho pae o gentil moço,
Elle todo agitado, o ancião sombrio,
Calados ambos. A attitude de ambos,
O mysterioso, gelido silencio,
Mais que tudo, a presença nunca usada
Daquelle homem ali, que mal a espreita
De longe e a furto, nos instantes breves
Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça
O animo abala e o coração enfia.