Mas o tropel de fóra avulta e cresce
E os tres accorda. A virgem, lentamente,
Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço
Que dos dous a separa... O tenro collo
Curva ante o pae, e na enrugada dextra
O osculo imprime, herdada usança antiga
De filial respeito. As mãos lhe toma
Enternecido o velho; olhos com olhos
Alguns instantes rapidos ficaram,
Até que elle, voltando o rosto ao moço:
«—Perdoai,—disse,—se o paterno affecto
Me atou a lingua. Vacillar é justo
Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem
Que unica lhe nasceu,—unica adorna
A aridez melancholica do extremo,
Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a,
Arrancal-a aos meus ultimos instantes,
Não o fareis de certo. Pouco importa
Dês que a metade lhe levaes da vida,
Dês que seu coração, comvosco parte
Affeições minhas.—Ao demais, o sangue
Que lhe corre nas veias, condemnado,
Nuno, será dos vossos...» Longo e frio
Olhar estas palavras acompanha,
Como a arrancar-lhe o pensamento interno.
A donzella estremece. Nuno o alento
Recobra e falla: «Puro sangue é elle,
Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,
Candida creatura, alma tão casta,
Inda nascida entre os incréos da Arabia,
Deus a votara á conversão e á vida
Dos eleitos do céu. Aguas sagradas
Que a lavaram no berço, já nas veias
O sangue velho e impuro lhe trocaram
Pelo sangue de Christo...»
VI
Neste instante
Cresce o tumulto exterior. A virgem
Medrosa toda se conchega ao collo
Do velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo!
Nuno prossegue.—Este commum perigo
Chama os varões á rispida batalha;
Com elles vou. Se um galardão, emtanto,
Merecer de meus feitos, não á patria
Irei pedil-o; só de vós o espero,
Não o melhor, mas o unico na terra,
Que a minha vida...» Rematar não pôde
Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova
Da imminente peleja
E a decisão de combater por ella,
Inteiras sente as forças que se perdem
A donzella, e bem como ao rijo vento
Inclina o collo o arbusto
Nos braços desmaiou do pae. Volvida
A si, na pallidez do rosto o velho
Attenta um pouco, e suspirando: «As armas
Empunhae; combatei; Angela é vossa.
Não de mim a havereis: ella a si mesma
Toda nas vossas mãos se entrega. Morta
Ou feliz é a escolha; não vacillo:
Seja feliz, e folgarei com ella...»
VII
Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo,
Ao seio os conchegou, bem como a tenda
Do patriarcha santo agasalhava
O moço Isaac e a delicada virgem
Que entre os rios nasceu. Delicioso[21]
E solemne era o quadro; mas solemne
E delicioso embora, ia esvair-se
Qual celeste visão, que accende a espaços
O animo do infeliz. A guerra, a dura
Necessidade de immolar os homens,
Por salvar homens, a terrivel guerra
Corta o amoroso vinculo que os prende
E á moça o riso lhe converte em lagrimas.
Misera és tu, pallida flôr; mas soffre
Que o calor deste sol te acurve o calix,
Morta, não, nem já murcha,—mas apenas
Como cançada de queimor do estio.
Soffre; a tarde virá serena e branda
A reviver-te o alento; a fresca noite
Choverá sobre ti piedoso orvalho
mais risonha surgirás á aurora.
VIII
Foge á estancia da paz o hardido moço;
Esperança, fortuna, amor e patria
A guerrear o levam. Já nas veias
O vivo sangue irrequieto pulsa,
Como ancioso de correr por ambas,
A bella terra e a suspirada noiva.
Triste quadro a seus olhos se apresenta;
Nos femininos rostos vê pintados
Incerteza e terror; lamentos, gritos
Soam de entorno. Voam pelas ruas
Homens de guerra; homens de paz se aprestam
Para a crua peleja; e, ou nobre estancia,
Ou choupana rasteira, armado é tudo
Contra a forte invasão. Nem lá se deixa
Quieto, a sós com Deus, na estreita cella,
O solitario monge que ás batalhas
Fugiu da vida. O patrimonio santo
Cumpre salval-o. Cruz e espada empunha,
Deixa a serena região da prece
E voa ao torvelinho do combate.
IX
Entre os fortes alumnos que dirige
O ardido Bento, a perfilar-se corre[22]
Nuno. Estes são os que o primeiro golpe
Descarregam no attonito inimigo.
Do militar officio ignoram tudo,
De armas não sabem; mas o brio e a honra
E a lembrança da terra em que primeiro
Viram a luz, e onde o perdel-a é doce,
Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo
Do nobre esforço e galhardia rara,
Com que inda nos humbraes da vida que orna
Tanta esperança, tanto sonho de ouro,
Resolutos a morte encaram, prestes
A retalhar nas dobras
Da vestidura funebre da patria
O piedoso lençol que os leve á campa,
Ou com ella cingir o eterno louro.