Ó mocidade, ó baluarte vivo
Da cara patria! Já perdida é ella,
Quando em teu peito enthusiasmo santo
E puro amor se extingue, e áquelle nobre,
Generoso despejo e ardor antigo
Succede o frio calcular, e o torpe
Egoismo, e quanto ha hi no humano peito,
Que é fructo nosso e podre... Muitos caem
Mortos alli. Que importa? Vão seguindo
Avante os bravos, que a invasão caminha
Implacavel e dura, como a morte,
A pelejar e a destruir. Tingidas
Ruas de extranho sangue
E sangue nosso, lacerados membros,
Corpos de que ha fugido a alma cançada,
E o denso fumo e os funebres lamentos,
Quem nessa confusão, miseria e gloria
Conhecerá da juvenil cidade
O aspecto, a vida? Aqui da infancia os dias
Nuno vivêra, á vecejante sombra
Do seu patrio arvoredo, ao som das vagas
Que inda batendo vão na amada areia;
Risos, jogos da verde meninice,
Esta praia lhe lembra, aquella pedra,
A mangueira do campo, a tosca cerca
De espinheiro e de flôres enlaçadas,
A ave que voa, a brisa que suspira,
Que suspira como elle ha suspirado,
Quando rompendo o coração do peito
Ia-lhe empós dessa visão divina,
Realidade agora... E ha de perdel-as
Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça
Torva e surda no cerebro do moço,
E ao contrahido espirito redobra
Impeto e forças. Rompe
Por entre a multidão dos seus, e investe
Contra o duro inimigo; as balas voam,
E com ellas a morte, que não sabe
Dos escolhidos seus a terra e o sangue,
E indistinctos os toma; elle, no meio
Daquelle horrivel turbilhão, parece
Que a faisca do genio o leva e anima,
Que a fortuna o votára á gloria.
XI
Soam
Enfim os gritos de triunmpho; e o peito
Do povo que lutou respira á larga,
Como ao que, após ardua subida, chega
Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos
Estende pelo azul dos céus, e a vida
Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue
A victoria custára; mas, se em meio
De tanta gloria ha lagrimas, soluços,
Gemidos de viuvez, quem os escuta,
Quem as vê essas lagrimas choradas
Na multidão da praça que troveja
E folga e ri? O sacro bronze que usa
Os fieis convidar á prece, e a morte
Do homem pranteia lugubre e solemne,
Ora festivo canta
O comum regosijo; e pela aberta
Porta dos templos entra a frouxo o povo
A agradecer com lagrimas e vozes
O triumpho,—piedoso instincto da alma,
Que a Deus levanta o pensamento e as graças.
XII
Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,
Voa nas asas rutilas e leves
Da fortuna e do amor. Como ao indiano,
Que, ao regressar das porfiadas lutas,
Por estas mesmas regiões entrava,
A encontral-o saía a meiga esposa,
—A recente christã, entre assustada
E jubilosa coroará teus feitos
Co'a melhor das capelas que hão pousado
Em fronte de varão,—um doce e longo
Olhar que inteiro encerra a alma que chora
De gosto e vida! Voa o moço á estancia
Do ancião; e ao pôr na suspirada porta
Olhos que traz famintos de encontral-a,
Frio terror lhe empece os membros. Frouxo
Ia o sol transmontando; lenta a vaga
Melancholicamente ali gemia,
E todo o ar parecia arfar de morte.
Qual se pallida a víra, já cerrados
Os desmaiados olhos,
Frios os doces labios
Cansados de pedir aos céus por elle,
Nuno estacára; e pelo rosto em fio
O suor lhe caiu da extrema angustia;
Longo tempo vacilla;
Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.
XIII
Quatro vultos na camara paterna
Eram. O pae sentado,
Calado e triste. Reclinada a fronte
No espaldar da cadeira, a filha os olhos
E o rosto esconde, mas tremor continuo
De um abafado soluçar o esbelto
Corpo lhe agita. Nuno aos dous se chega;
Ia a fallar, quando a formosa virgem,
Os lacrimosos olhos levantando,
Um grito solta do intimo do peito
E se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo!
Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,
Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes,
Salva meu pobre pae!» Estremecendo,
Nella e no velho fita Nuno os olhos,
E agitado pergunta: «Qual ousado
Braço lhe ameaça a vida?» Cavernosa
Uma voz lhe responde: «O sancto officio!»
Volve o mancebo o rosto
E o merencorio aspecto
De dous familiares todo o sangue
Nas veias lhe gelou.
XIV
Solemne o velho
Com a voz, não frouxa, mas pausada, falla:
«Vês? Todo o brio, todo o amor no peito
Te emudeceu. Só lastimar-me podes,
Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda,
E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo,
A vontade de Deus. Tu, pae e esposo
Da desvalida filha que ahi deixo,
Nuno, serás. A relembrar com ella
Meu pobre nome, applacareis a immensa
Colera do Senhor...» Sorrindo ironico,
Estas palavras ultimas lhe caem
Dos labios tristes. Ergue-se: «Partamos!
Adeus! Negou-me Aquelle que no campo
Deixa a arvore ancian perder as folhas
No mesmo ponto em que as nutriu viçosas,
Negou-me ver por estas longas serras
Ir-se-me o ultimo sol. Brando regaço
A filial piedade me daria
Em que eu dormisse o derradeiro somno,
E em braços de meu sangue transportado
Fora em horas de paz e de silencio
Levado ao leito extremo e eterno. Vive
Ao menos tu...»