Um familiar lhe corta
O adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!»
Resignado o infeliz, ao seio aperta
A filha, e todo o coração n'um beijo
Lhe transmitiu, e a caminhar começa.
Angela os lindos braços sobre os hombros
Trava do austero pae; flôres dissereis
De parasita, que enroscou seus ramos
Pelo cançado tronco, esteril, secco
De arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiro
A alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a morte
Pena hade ser da commettida culpa,
Convosco descerei á campa fria,
Juntos a mergulhar na eternidade.
Israel tem vertido
Um mar de sangue. Embora! á tona delle
Verdeja a nossa fé, a fé que anima[23]
O eleito povo, flôr suave e bella
Que o medo não desfolha, nem já secca
Ao vento mau da colera dos homens!»

XVI

Trémula a voz do peito lhe saía.
Das mãos lhe trava um dos algozes. Ella
Entrega-se risonha,
Como se o calix da amargura extrema
Pelos meles da vida lhe trocassem
Celeste e eterna. O coração do moço
Latejava de espanto e susto. Os olhos
Pousa na filha o desvairado velho.
Que ouviu?—Attenta nella; o lindo rosto
O céu não busca jubiloso e livre,
Antes, como travado de agra pena,
Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso
Entre si mesma uma oração, e o nome
De Jesus repetia, mas tão baixo,
Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o.
Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanho
Sacrificio da vida a alma lhe rasga
E deslumbra. Escoou-se um breve tempo
De silencio; elle e ella, os tristes noivos,
Como se a eterna noite os recebêra,
Gelados eram; levantar não ousam
Um para o outro os arrasados olhos
De mal contidas e teimosas lagrimas.

XVII

Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca
Do coração estas palavras: «Fôra
Misericordia ao menos confessal-o
Quando ao fogo do barbaro inimigo
Me era facil deixar o derradeiro
Sopro da vida. Premio é este acaso
De tamanho lidar? Que mal te hei feito,
Por que me dês tão barbara e medonha
Morte, como esta, em que o cadaver guarda
Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto
Da vida que fugiu?» Angela os olhos
Magoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto,
Como o dorso da vaga que intumesce
A asa da tempestade. «Adeus!» suspira,
E a fronte abriga no paterno seio.

XVIII

O rebelde ancião, domado emtanto,
Afracar-se-lhe sente dentro d'alma
O sentimento velho que bebera
Com o leite dos seus; e sem que o labio
Transmitta a ouvidos de homem
O duvidar do coração, murmura
Dentro de si: «Tão poderosa é essa
Ingenua fé, que inda negando o nome
Do seu Deus, confiada acceita a morte,
E guarda puro o sentimento interno
Com que o véu rasgará da eternidade?
Ó Nazareno, ó filho do mysterio,
Se é tua lei a unica da vida
Escreve-m'a no peito; e dá que eu veja
Morrer commigo a filha de meus olhos
E unidos irmos, pela porta immensa
Do teu perdão, á eternidade tua!»

XIX

Mergulhára de todo o sol no occaso,
E a noite, clara, deliciosa e bella,
A cidade cobriu,—não socegada,
Como costuma,—porém leda e viva,
Cheia de luz, de cantos e rumores,
Victoriosa enfim. Elles, calados,
Foram por entre a multidão alegre,
A penetrar o carcere sombrio.
Donde ao mar passarão, que os leve ás praias
Da ancian Europa. Carregado o rosto,
Ia o pae; ella, não. Serena e meiga,
Entra affouta o caminho da amargura,
A custo soffreando internas maguas
Da amarga vida, breve flôr como ella,
Que inda mais breve a mente lhe affigura.
Anjo, descera da região celeste
A pairar sobre o abysmo; anjo, subia
De novo á esphera luminosa e eterna,
Patria sua. Levar-lhe-ha Deus em conta
O muito amor e o padecer extremo,
Quando romper a tunica da vida
E o silencio immortal fechar seus labios.