—Praia Formosa, murmurou elle; bem posto nome.
Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Sacco do Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando, em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. Todos elles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pecurrucho do tres annos; agarrava-se-lhe á perna e ia-a estendendo até nivelal-a com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino.
Rubião deteve-se alguns minutos deante daquillo. O sujeito, vendo-se objecto de attenção, redobrou o exforço no brinco; perdeu a naturalidade. Os outros meninos mais edosos detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Sacco do Alferes, passou a Gamboa, parou deante do cemiterio dos inglezes, com os seus velhos sepulchros trepados pelo morro, e afinal chegou á Saude. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, beccos, muita casa antiga, algumas do tempo do rei, comidas, gretadas, estripadas, o caio encardido, e a vida lá dentro. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nelle transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!
[CAPITULO LXXXVII]
Rubião chegou ao fim da rua da Saude. Ia á toa com os olhos espraiados e desattentos. Rente com elle, passou uma mulher, não bonita, nem feia, singella sem elegancia, antes pobre que remediada, mas fresca de feições; contaria vinte e cinco annos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião.
—Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.
Rubião inclinara-se ao pequeno, para amparal-o.
—Muito obrigada, desculpe, disse ella sorrindo; e comprimentou-o.
Rubião tirou o chapéo, e sorriu tambem. A visão da familia apoderou-se delle outra vez.—«Case-se, e diga que eu o engano!»—Parou, olhou para traz, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé della, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em varias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, musica séria, regular e classica. Chegou a pensar na filha do major, que apenas sabia umas velhas mazurkas. De repente, ouvia a guitarra do peccado, tangida pelos dedos de Sophia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saude, modos tão bonitos, creancinha pela mão...