O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse máo sentido; mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e communs. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do principio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação.
—Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse elle. Hade deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não é para offender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que aggrave um freguez serio; mas não creio que esteja admirado do bairro.
—Porque? aventurou Rubião.
O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,—não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito, Rubião ratificou a primeira affirmação; tinha ido alli muitos annos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava da nada. E o cocheiro ria; e, á medida que o freguez ia demonstrando, elle ia ficando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.
—Já sei disso, concluiu elle. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira porque olhou para aquella moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gósta...
Rubião, lisongeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:
—Que moça?
—Que lhe dizia eu? redarguiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não ha muitos dias trouxe aqui um bello moço, muito bem vestido, pessoa fina,—já se sabe, negocio de rabo de saia.
—Mas eu... interrompeu o Rubião.
Mal podia conter-se; a supposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que elle dissimulava a culpa.