—Olhe, eu bem digo,—continuou elle; tal qual o moço da rua dos Invalidos. Vossa Senhoria póde ficar descançado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro ás ordens, vem andando a pé desde a praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veiu ao logar marcado, a pessoa não veiu...
—Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.
—Tal qual o moço da rua dos Invalidos, repetiu o homem. Esse veiu ver uma costureira da mulher, como se fosse casado...
—Da rua dos Invalidos? perguntou Rubião, que só agora attentava no nome da rua.
—Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da rua dos Invalidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu tambem se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por elle... Ella não sei d'onde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão.
E vendo que o freguez o escutava com os olhos arregalados:
—Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um veu, cousa papafina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.
—Mas... como foi? murmurou Rubião.
—Ora, como foi! Elle chegou como Vossa Senhoria, no meu tilbury, apeou-se e entrou n'uma casa de rotula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e elle tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, comprehendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da rua da Harmonia...
—Da Harmonia? repetiu Rubião.