—Máo! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; fallemos de outra cousa; não digo mais nada.

Rubião olhava attonito para o homem, que de facto se calou por dous ou tres minutos, mas logo depois continuou:

—Tambem não ha muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando; meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ella veiu, veiu, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas magicas, a rotula abriu-se por si, e ella enfiou por alli dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe alguma cousa mais? O preço da tabella mal dá para comer; é preciso fazer estes ganchos.


[CAPITULO XC]

—Não, não podia ser ella, reflectiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto.

Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo cocheiro do tilbury. Tentou esquecel-o, arranjando papeis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que ha muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da rua da Harmonia fosse ella; mas o bom effeito era curto. Dahi a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a propria Sophia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... Beati quorum tecta sunt peccata. Assim rangia a porta em mau e litteral sentido. A visão foi tal, em certa occasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se alli estivesse a rotula da rua Harmonia. De imaginação, fez uma serie de acções:—bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sophia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado.

—Não, não podia ser ella.

Vestiu o collete, e foi abotoal-o deante de uma das janellas, que dava os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outr'ora! Mas desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropellou as tristes formigas, matando uma porção dellas. Talvez alguma lhe pareceu «boa figura e bonita de corpo». Logo depois arrependeu-se do acto; e realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do collete. Sôôôô... fia, fia, fia, fia, fia, fia... Sôóóô... fia, fia, fia, fia, fia...

Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensal-as. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não póde ser. Nem era capaz de approximar as cousas, e concluir dellas,—nem o faria agora que está a chegar ao ultimo botão do collete, todo ouvidos, todo cigarra... Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulez, que vos pague a fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto: