Quando cançou, olhou para o céo; lá estava o Cruzeiro... Oh! se ella houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constellação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a miral-a, a compôr mil cousas lindas e namoradas,—a viver do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desbrochados, accudiu á mente do nosso amigo que o Cruzeiro não é só uma constellação, é tambem uma ordem honorifica. D'aqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a ideia de fazer do Cruzeiro uma distincção nacional e previlegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores publicos. Era bella, mas principalmente rara.
—Tanto melhor! disse elle em voz alta.
Era perto de duas horas quando sahiu da janella; fechou-a e foi metter-se na cama, dormiu logo; accordou ao som da voz do creado hespanhol, que lhe trazia um bilhete.
[CAPITULO XCVIII]
Rubião sentou-se na cama, estremunhado, não reparou na lettra do sobrescripto; abriu o bilhete, e leu:
«Ficamos hontem muito inquietos, depois que o
senhor sahiu. Christiano não vae lá agora, porque
accordou tarde, e tem de ir fallar ao inspector da
alfandega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças
de Maria Benedicta e da
Sua amiga e obrigada
Sophia.»
—Diga ao portador que espere.
Dahi a vinte minutos a resposta chegou á mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o proprio Rubião que lh'a entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões, recommendando-lhe que, quando precisasse alguma cousa, viesse procural-o. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometteu tudo.
—Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião.