Estava tão bonita, que elle hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cór. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de sêda, cousas todas que pediam misericordia e perdão. Quanto á espada daquella bainha,—assim chama á alma um velho autor,—parecia não ter gume nem campanhas; era uma ingenua faca de marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.
—Que papel? perguntou Sophia.
—Um papel, que supponho grave, respondeu elle contendo-se;—não se recorda ou não sabe que perdeu uma carta?
—Não.
—Costuma escrever cartas?
—Tenho escripto algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.
Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levantou-se para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silencio e inquietação, fallou sem raiva:
—Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e não me despede, nem me acceita, anima-me com os seus bonitos modos. Não me esqueci ainda de Santa Theresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vinhamos os dous, com seu marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquella viagem; desde aquelle dia a senhora me prendeu. A senhora é má, tem genio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...
—Cale-se, vem gente, interrompeu Sophia erguendo-se tambem e olhando para o lado da porta.
Não vinha ninguem; entretanto, podiam ouvil-o, por que a voz do Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma.