—Não me importa que ouçam, bradou elle; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora bota-me para fóra e tudo acaba. Não, não se póde fazer soffrer assim um homem como eu.

—Cale-se, pelo amor de Deus!

—Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a não guardar nada...

Desatinada, receiando deveras que algum criado ouvisse, Sophia levantou a mão e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquella epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sophia retirou a mão, e dispoz-se a deixar a sala; mas, chegando á porta, parou. Rubião caminhara até á janella, para convalecer da explosão.


[CAPITULO CIV]

Sophia, depois de estar alguns segundos á escuta, tornou á sala, e foi sentar-se com grande rumor de saias, na ottomana de setim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ella, abanando reprehensivamente a cabeça. Antes que elle falasse, Sophia poz o dedo na boca, pedindo-lhe silencio; depois chamou-o com a mão; Rubião obedeceu.

—Sente-se naquella cadeira, disse ella; e continuou, depois de o ver sentado: Tenho razão para zangar-me com o senhor; não o faço, porque sei que é bom, e estou que é sincero; arrependa-se do que me disse, e tudo lhe será perdoado.

Acabando de fallar, Sophia bateu com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compôr; depois levantou os braços sacudindo as pulseiras do vidro preto; finalmente, pousou os braços sobre os joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrario do que esperava, Rubião abanou a cabeça negativamente.

—Não tenho de que me arrepender, disse elle; e prefiro que me não perdoe. A senhora ficará cá dentro, quer queira, quer não; podia mentir, mas que é que rende a mentira? A senhora é que não tem sido sincera commigo, porque me tem enganado...