—Não me fizeram nada; lá irei amanha á noite.

—Vá jantar.

—Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite.—E querendo rir: Não as castigue, que não me fizeram nada.

—Alguem o possue, reflictiu Palha logo que elle saiu; alguem, por inveja as nossas relações... Tambem póde ser que Sophia lhe fizesse alguma para arredal-o de casa...

Rubião assomou outra vez á porta; não tivera tempo de chegar á esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscal-o ao armazem; de noite iria então visital-os. Precisava do dinheiro até ás duas horas da tarde.


[CAPITULO CIX]

Nessa noite, Rubião sonhou com Sophia e Maria Benedicta. Viu-as n'um grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente despidas; o marido de Sophia, armado de um azorrague de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente. Ellas gritavam, pediam misericordia, torciam-se, alagadas em sangue, as carnes cahiam-lhes aos bocados. Agora, porque razão Sophia era a imperatriz Eugenia, e Maria Benedicta uma aia sua, é o que não sei dizer com exactidão. «São sonhos, sonhos, Penseroso!» exclamava um personagem do nosso Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho Polonius, acabando de ouvir uma falla tresloucada de Hamlet: «Desvario embora, lá tem seu methodo». Tambem ha methodo aqui, nessa mistura de Sophia e Eugenia; e ainda ha methodo no que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante.

Sim, Rubião, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as victimas. Uma dellas, Sophia, acceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubião, e lá foram a galope, ella garrida e sã, elle glorioso e dominador. Os cavallos, que eram dous á sahida, eram dahi a pouco, oito, quatro bellas parelhas. Ruas e janellas cheias de gente, flores cahindo em cima delles, acclamações... Rubião sentiu que era o imperador Luiz Napoleão; o cachorro ia no carro aos pés de Sophia...

Tudo acabou sem fim, nem fracasso, Rubião abriu os olhos; talvez alguma pulga o mordeu; qualquer cousa: «Sonhos, sonhos, Penseroso!» Ainda agora prefiro o dito de Polonius: «Desvario embora, lá tem seu methodo!»