Rubião não respondeu logo.
—Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte commigo. Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça... Espere por mim daqui a meia hora, no armazem.
Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha ja não resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro com indifferença. Rubião não tornou a casa sem comprar um magnifico diamante, que na quarta-feira, enviou a Sophia, acompanhado de um bilhete de visita, e duas palavras de felicitação.
Sophia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a criada esperou que ella o abrisse para ver tambem o que era. Sophia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia,—uma bella pedra, no centro de um collar. Esperava alguma cousa bonita; mas, depois dos ultimos successos, mal podia crer que elle fosse tão generoso. Batia-lhe o coração.
—O portador está ahi?
—Já foi. Que cousa rica, minha ama!
Sophia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sosinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:
—Aquelle homem adora-me.
Tratou de vestir-se; mas, ao passar por deante do espelho, deixou-se estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos proprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove annos, achava que era a mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado o collete, deante do espelho, accommodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o collo magnifico. Lembrou-se então de ver como lhe ficava o diamante; tirou o collar e pol-o ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e vice-versa, approximou-se, affastou-se, augmentou a luz do camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.
—Aquelle homem adora-me, repetiu.