—Provavelmente, elle lá estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo; duvido que tenha dado melhor presente que eu.
Carlos Maria lá estava, effectivamente, conversando, entre uma das commissarias das Alagoas, e Maria Benedicta. Poucos eram os convivas; houve proposito em escolher e limitar. Não estava alli o major Sequeira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu naquelle outro jantar de Santa Thereza. Da commissão das Alagoas viam-se algumas damas; via-se mais o director do banco,—o da visita ao ministro,—com a senhora e as filhas,—outro personagem bancario,—um commerciante inglez, um deputado, um desembargador, um conselheiro, alguns capitalistas, e pouco mais.
Posto que evidentemente gloriosa, Sophia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubião entrar na sala e caminhar para ella. Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça levantada, o avêsso, em summa, do antigo gesto encolhido e diminuto. Sophia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. Á mesa fel-o sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente da commissão. Rubião olhava superiormente para tudo. A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão, nem o ar ceremonioso, nem o luxo da mesa, nem o da farda dos creados, barbeados de fresco, abotoados até á gravata branca, e trazendo nos botões estas duas letras C.P. Nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sophia, embora lhe fosse agradavel, não o tonteava, como outrora. E da parte della era mais apurada a attenção, e os olhos excepcionalmente meigos e serviçaes. Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as mesmas moças da sala,—Maria Benedicta e a commissaria das Alagoas. Verificou que só se occupava com ellas, não olhava para Sophia, nem esta para elle.
—Talvez disfarcem, pensou.
Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar,—mas o movimento geral da reunião podia illudil-o, e Rubião não fez maior cabedal da observação. Sophia dera-se pressa em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ella:
—Tenho esperado pelo senhor desde aquelle dia, e nunca mais veiu aqui. Era meu direito exigil-o, para explicar-me. Logo fallaremos.
Rubião foi dahi a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se fallava de politica e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando os outros sahiram, Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um sophá de couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu officio, um tanto pachorrenta, agora,—talvez porque elle tivesse comido muito. Lá fóra iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa, crescia o borborinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse dos seus bellos sonhos. O proprio som do piano, que fez calar todos os rumores, não o attrahiu á terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no gabinete, fel-o erguer-se do golpe, accordado.
—Ahi está, disse Sophia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa musica. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor.
E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que elle mesmo a abrisse e lesse. Que melhor prova de innocencia? A palavra sahia-lhe rapida, seria, digna e commovida. Occasião houve em que os olhos se lhe tornaram humidos; ella enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lagryma,—uma pequena lagryma,—escorregar até o canto da bocca. Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que idéa aquella de chorar? Sophia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão agradecida.
—Até já, disse ella.