—Você precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias, da manhã, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao theatro com ella, e passára lá a noite.—Não quero estremecimentos; precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, não tem força. Aqui na chacara é differente. E se você tem animo de trepar commigo um pedaço do morro, então é que ficaremos hem. Vamos?
—Está fazendo calor...
—É mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só tem agua nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada, para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz,—continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.
—Não tenho.
—Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escriptos no coração; conheço um bom inquilino.
Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por ella. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o, instava, rogava,—intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedicta esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma dellas disse nada.
—Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.
—Não tenho que dizer.
D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao hombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o á lua,—fosse onde fosse,—excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio, dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,—prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava,—mas, como tambem não sorria, e tremia de commoção, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.
—Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.