Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastára as forças e sentia a necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, á barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por elle. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de indole e de especie para se converter em adoração pura. A principio, quando ella via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos,—um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quasi um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quasi que só este. Tinha chorado muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.

—Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando á tôa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negocio, por que elle casa com outra, os annos passam, a paixão monta na garupa delles, e um dia, quando você menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem é esse barbaro?

—Isso não digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.

—Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar;—não podendo ser com esse, será com outro.

—Não, não caso.

—Só com elle?

—Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns instantes. Gósto delle, como gósto de Deus, que está no ceu.

—Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguem como a Deus,—a segunda é que um marido, ainda sendo máo, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.


[CAPITULO CXIX]