—Está bom, deixa-me ir despir, disse ella forcejando por descer o vestido.
Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito, era um bello trecho da natureza. A meia de seda dava ideia clara da perfeição do contorno. Palha, por graça, ia perguntando á mulher se se machucára aqui, e mais aqui, e mais aqui, indicando os logares com a mão que ia descendo. Se apparecesse um pedacinho desta obra-prima, o céo e as arvores ficariam assombrados, concluiu elle em quanto a mulher descia o vestido e tirava o pé do banco.
—Póde ser, mas não havia só o céo e as arvores, disse ella; havia tambem os olhos do Rubião.
—Ora, o Rubião! É verdade; elle nunca mais teve aquellas ideias de Santa Thereza?
—Nunca; mas, emfim, não me agradaria... Jura de verdade, Christiano?
—O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até á cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?
Pieguices de lascivo. Sahiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquelle pudor medroso e incredulo de Sophia fazia-lhe bem. Mostrava que ella era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que elle a possuia, considerava que era de grande senhor não se affligir com a vista casual e instantanea de um pedaço occulto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras villas do territorio, antes da cidade machucada pela queda, dariam ideia de uma civilisação sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o collo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da unica testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.
[CAPITULO CXLV]
Foi por esse tempo que Rubião poz em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então Janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabelleireiro da rua do Ouvidor que o mandasse barbear a casa, no outro dia, ás nove horas da manhã. Lá foi um official francez,—chamado Lucien, creio eu,—que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.