—Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.
Lucien parou á porta do gabinete, e comprimemtou o dono da casa; este, porem, não viu a cortezia, como não ouvira o signal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espirito, que rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas leguas iria? Nem condor nem aguia o poderia dizer. Em marcha para a lua,—não via cá em baixo mais que as felicidades perennes, chovidas sobre elle, desde o berço, onde o embalaram fadas, até á praia de Botafogo, aonde ellas o trouxeram, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revez, nenhum mallogro, nenhuma pobreza;—vida placida, cosida de goso, com rendas de superfluo. Em marcha para a lua!
Lucien relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ella os dous bustos de Napoleão e Luiz Napoleão. Relativamente a este ultimo, havia ainda, pendentes da parede, uma gravura ou lithographia representando a Batalha de Solferino, e um retrato da imperatriz Eugenia.
Rubião tinha nos pés um par de chinellas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na bocca, um riso azul claro.
[CAPITULO CXLVI]
—Monsieur...
—Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.
Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tel-o visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira, Quincas Borba latia, como a defendel-o contra o intruso.
—Socega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, metter-se por traz da cesta de papeis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus apparelhos.