—Seu barbeiro, você é pernostico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Alli tem o busto para guial-o.

—Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vae sair.

E zás, zás, deu os ultimos golpes ás barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação; o barbeiro ia tranquillamente rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Ás vezes, para melhor cotejal-os, recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

—Vae bem? perguntava Rubião.

Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e proseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou á vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptivel de cabello no queixo ou na face, para não o consentir, nem por suspeita. Ás vezes Rubião, cançado de estar a olhar para o tecto, emquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descançar. Descançando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança.

—Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.

—Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurval-os bem sobre o labio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originaes a uma só copia.

Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Emfim, prompto. Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era elle mesmo, em summa.

—Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os apparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.

E indo á secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil réis, e deu-lh'a.