Fóra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constancia devia reproduzir.
—Não é por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos principios,—porque eu nunca tentei conciliar principios, mas homens,—minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.
Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por força. Sentia-se então imperador dos francezes, incognito, de passeio; descendo á rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo de um espirito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes. Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.
[CAPITULO CXLIX]
—Que mudança é essa? perguntou Sophia, quando elle lhe appareceu no fim da semana.
—Vim saber do seu joelho; está bom?
—Obrigada.
Eram duas horas da tarde. Sophia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que estava alli Rubião,—tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vel-o curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.
—Mas que mudança é essa? repetiu ella. Rubião, sem nenhuma ideia imperial, respondeu que suppunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.