—Senhor Rubião...
—Napoleão, não; chama-me Luiz. Sou o teu Luiz, não é verdade, galante creatura? Teu, teu... Chama-me teu;—o teu Luiz, o teu querido Luiz. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras: «Meu Luiz!» Tu és a minha Sophia,—a doce, a mimosa Sophia da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que hade haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente fallava á vontade, e iria ao fim da terra...
Já então iam costeando o Passeio Publico; Sophia não deu por isso. Olhava fixamente para Rubião; não podia ser calculo de perverso, nem lhe attribuia mofa... Delirio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as cousas que relata.
—É preciso pol-o fóra daqui, pensou a moça. E, apparelhando-se de coragem:—Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É occasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece que é o convento; estamos no largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que páre; ou, se quer, pode apear-se no largo da Carioca. Meu marido...
—Vou nomeal-o embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quizer. Senador é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más linguas... Tu sabes a opposição que soffro, as calumnias... Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com elle? Queres ser freira?
—Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixal-o no largo da Carioca, Ou vamos até o armazem de meu marido?
Sophia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor a sua innocencia ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delirio. E que delirio era esse? Sophia pensou que o motivo podia ser ella propria, e esta ideia fel-a sorrir de piedade.
—Para que? disse Rubião. Vou apeiar-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que hade elle desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigal-o, mas sempre me ficaria o remorso do mal que elle te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita que eu mandaria pôr fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces bem o meu poder, Sophia; anda, confessa.
Como Sophia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e offereceu-lhe o solitario que tinha no dedo; ella, porém, comquanto amasse as joias e tivesse a intuição dos solitarios, recusou medrosamente a offerta.
—Comprehendo o escrupulo, disse elle; mas não perdes por isso, porque hasde receber outra pedra ainda mais bella, e pela mão de teu marido. Far-te-hei duqueza. Ouviste? O titulo é dado a elle, mas tu é que és a causa. Duque... Duque de que? Vou ver um titulo bonito; ou então escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para elle, é para ti, minha mimosa. Não é preciso escolher já, vae para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar immediatamente o decreto. Tambem podes fazer outra cousa: escolhe, e diz-me no nosso primeiro encontro, no logar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duqueza. Querida duqueza... O decreto virá depois. Duqueza da minha alma!