[CAPITULO CLIII]
—Sophia... disse de repente Rubião; e continuou com pausa:—Sophia, os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou delle, ou então não merece o nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca,—por mim, está claro, e estou certo que nem por ti. Tudo me déste, Sophia; a tua propria vida correu perigo. Verdade é que eu te vingaria, minha bella. Se a vingança póde alegrar os mortos, terias o maior prazer possivel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue...
A moça olhava espantada.
—Não te espantes, continuou elle; não nos vamos separar; não, não te fallo de separação. Não me digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lagrymas. Eu não,—que não vim ao mundo para chorar,—mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrario, as dores guardadas no coração doem mais que as outras. Lagrymas são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, fallo-te assim, porque é preciso termos cautella; a nossa insaciavel paixão póde esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito, Sophia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida é bella! a vida é grande! a vida é sublime! Comtigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?
Rubião disse esta ultima palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sophia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e tinha medo. A voz delle crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia terrivel a abalou: talvez o intento de Rubião fosse justamente fazer-se ouvir, para obrigal-a pelo terror,—ou então para que a abocanhassem. Teve impeto de atirar-se a elle, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escandalo.
Elle, baixinho, depois de certa pausa:
—A mim lembra-me, como se fosse hontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o veu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braços te ampararam... O sol daquelle dia devia ter parado, como quando obedeceu a Josué... E comtudo, minha flor, aquellas horas foram compridas como diabo, não sei porque; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não acabava mais,não acabou, nem hade acabar nunca... Em compensação, não vimos mais o sol; ia cahindo para o outro lado das montanhas, quando a minha Sophia, ainda medrosa, sahiu para a rua, e pegou de outra caleça. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da porta. E estive quasi, quasi a ir de rastos, beijar os degráos da escada... Não o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...
Não, não era possivel que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sophia mal podia escutal-a; mas, se lhe custava a entender as palavras, não chegava a comprehender o sentido dellas. A que vinha aquella historia não succedida? Quem quer que a ouvisse, acceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verosimilhança dos pormenores. E elle continuou suspirando as bellas reminiscencias...
—Mas que caçoada é essa? atalhou finalmente Sophia.
Não lhe respondeu o nosso amigo;—tinha a imagem deante dos olhos, não ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao piano; elles ouviam, mas o demonio da musica levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram o resto. Quando a musica cessou, as palmas romperam, e elles accordaram. Ai tristes! accordaram com o olhar do Palha em cima delles, um olho de onça brava. Nessa noite cuidou que elle a matasse.