Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no céo daquella possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuava a cair e o céo e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,—os adventicios e ignorados,—que uma só vez passaram por ella, cantaram o hymno da admiração e receberam o obolo da boa vontade. Porque não reteve algum de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? Não é que os obolos enriqueçam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egregios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem outra resposta mais que a agitação e a curiosidade.


[CAPITULO CLX]

Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro,—um desses raios humidos que parecem vir de olhos que choraram. Sophia cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por vêr, por andar, por sacudir aquelle torpor, e esperou que o sol varresse a chuva e tomasse conta do ceu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção della era constituil-o lanterna de Diogenes, e disse ao raio humido: «Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzil-a aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos bilhetes namorados,—se os recebe e não queima,—não lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmão dos meus raios...»

E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinarias e extraordinarias. Então o veu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cahir em grandes bategas.


[CAPITULO CLXI]

Sophia resignou-se á reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. É justo dizer que ella, quando regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe como aos que têm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cançada, e para repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero da Revista dos Dous Mundos. Um dia, no melhor dos trabalhos da commissão das Alagôas, perguntára-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:

Está lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mundos?

—Estou, acudiu Sophia; é muito interessante, Não estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de todos os que lêra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero, e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se á cama. Passára mal a noute, não lhe custou pegar no somno,—profundo, largo e sem sonhos,—excepto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava deante da mesma parede de cerração daquelle dia, mas no mar, á proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na agua um nome—Carlos Maria. E as lettras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mysterio; mas é sabido que os mysterios dos sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia, caminha para ella, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, analogas ás que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer, meia cahida para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ella se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui não ha que atterre. O terror veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadaver ao chão. Depois, um delles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia que se não assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.