—Que foi? perguntou elle.
—Ah! respirou Sophia. Gritei, não gritei?
Palha não respondeu nada; olhava á tôa, pensava em negocios. Então um receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,—o mesmo que escrevera na agua. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fel-os cahir sobre os hombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre, meia triste:
—Sonhei que estavam matando você.
Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, intimo, profundo,—que o faria desejar outros pesadelos, para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.
[CAPITULO CLXII]
No dia seguinte, o sol appareceu claro e quente, o ceu limpido, e o ar fresco. Sophia metteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o proprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em sua casa,—e das que achou na rua do Ouvidor, a agitação externa, as noticias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da vespera.