Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a velleidade pura, e, com algumas horas de intervallo, todos os maos pensamentos se recolheram ás suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de Sophia, não sei que vos diga. Ha uma escala de resentimento e de reprovação. Não é só nas acções que a consciencia passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor á indifferença. Os simples peccados de pensamento são sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas affeiçoa tanto a ellas,—que, afinal, o espirito não as estranha, nem as repelle. E nestes casos ha sempre um refugio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem macula.


[CAPITULO CLXIV]

Um só incidente affligiu Sophia naquelle dia puro e brilhante,—foi um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; em quanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto o percorreu com os olhos os livros da prateleira,—uns livros de anatomia e de estatistica;—recebeu o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rapida como uma flexa, saiu á rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe socegou, quando a rua dos Ourives ficou para traz. Não podia adivinhar que Rubião a não tinha visto, sequer; nem podia saber que, não a vendo embora, não sahisse logo, não a conhecesse, não corresse a aggarral-a, a dizer-lhe algum desvario.

Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com elle no saguão. Cuidou que subisse, e dispoz-se a subir tambem, ainda que receiosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos familiarmente, e despediram-se até á tarde.

—Elle vem aqui muitas vezes? perguntou Sophia a D. Fernanda, depois de lhe contar o encontro do saguão.

—Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez appareceu delirando. Das outras é como viu agora, socegado, e até conversador. Ha nelle sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sophia; aquelle homem pode sarar. Porque não faz com que seu marido tome isto a peito?

—Christiano tem projecto de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.

—Sim, falle-lhe. Elle parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.

—Ter-lhe-ha dito alguma inconveniencia no delirio, a meu respeito? pensou Sophia. Convirá revellar-lhe a verdade?