Concluiu que não; o proprio mal do Rubião explicaria as inconveniencias. Prometteu que apressaria o marido, e, nessa mesma tarde expoz o negocio ao Palha, approvando a ideia de tentar a cura. «Era uma grande amolação,» redarguiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar áquelle negocio. Que o tratasse ella mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Theophilo. Um aborrecimento de todos os diabos.

—Já ando com grande carga sobre mim, Sophia. E depois como hade ser? Havemos de trazel-o para casa? Parece que não. Mettel-o onde? Em alguma casa de saude... Sim, mas se não puderem acceital-o? Não heide mandal-o para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometteu que me falaria?

—Prometti, e affirmei que você faria isto, respondeu Sophia sorrindo. Talvez não custe tanto como parece.

Sophia insistiu ainda, A compaixão de D. Fernanda tinha-a impressionado muito; achou-lhe um quê distincto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião, assim se mostrava interessada, era de bom tom não ser menos generosa.


[CAPITULO CLXV]

Tudo se fez socegadamente. Palha alugou uma casinha na rua do Principe, cerca do mar, onde metteu o nosso Rubião, alguns trastes e o cachorro amigo. Rubião acceitou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delirio, com enthusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.

Não succedeu assim aos amigos da casa, que receberam a noticia da mudança como um decreto de exilio. Tudo na antiga habitação fazia parte delles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cór. Era entrar, pendurar o chapeu, e ir esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obsequio recebido. Depois, a visinhança. Cada um daquelles amigos do Rubião estava affeito a ver as pessoas do logar, as caras da manhã e as da tarde, alguns chegavam a comprimental-as, como aos seus proprios visinhos. Paciencia! iriam agora para Babylonia, como os desterrados de Sião. Onde quer que estivesse o Euphrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,—ou mais propriamente, cabides em que puzessem os chapéos. A differença entre elles e os prophetas é que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam os velhos hymnos, tão novos como no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.

—O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na vespera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vae tratar-se, por emquanto é preciso que descance. Arranjai-lhe uma casa pequena, mas póde ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saude.

Ouviram attonitos. Um delles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que ha mais tempo se devia ter feito aquillo; mas, para fazel-o, era preciso ter influencia decisiva no animo de Rubião.