—Parece-lhe então que elle pode ficar bom?

—Póde, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é melhor um especialista.

Pouco depois, saindo á rua, Falcão sorria da resistencia de D. Fernanda em acceitar a sua hypothese. «Com certeza, houve alguma cousa, dizia elle comsigo; boa cara, e, si não é um petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza...» E repetia algumas phrases de Rubião, evocava o gesto e a modulação terna da voz com que fallava de Sophia, e cada vez mais se lhe ia aggravando a suspeita, «Com certeza...» Era já impossivel que se não tivessem amado; a opposição de D. Fernanda parecia-lhe ingenua,—se não era antes um recurso para desconversar e não tocar na materia. Havia de ser isso...

Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe o espirito. Apoz alguns instantes rapidos, abanou a cabeça voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que occupa deveras o interior do homem, não faz caso da cabeça nem dos seus gestos. «Quem sabe se D. Fernanda não suspirou tambem por elle? Essa dedicação não seria um prolongamento de amor, etc.?» E assim foram nascendo perguntas, que achavam no intimo do Dr. Falcão resposta affirmativa. Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,—ia pensando,—bem podia ser que um sentimento occulto, recatado,—quem sabe até se provocado pela mesma paixão da outra...? Ha dessas tentações. O contagio da lepra corrompe o mais puro sangue; um triste bacillo destróe o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as velleidades de resistencia foram cedendo á noção da possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha noticia de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquelle caso era novo. Essa dedicação especial a um homem que não era familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, adherente, collega do marido, qualquer cousa que o fizesse participe da vida domestica, pelas relações, pelo sangue ou pelo costume não era explicavel sem algum motivo secreto. Amor, seguramente; curiosidade de mulher honesta, que póde descambar no vicio e no remorso. Aquella teria recuado a tempo; ficou-lhe a sympathia morbida... E d'ahi, quem sabe?


[CAPITULO CLXVIII]

E d'ahi, quem sabe? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte. A noite não apagara a desconfiança do homem. E d'ahi quem sabe? Sim, não seria só sympathia morbida. Sem conhecer Shakespeare, elle emendou Hamlet: «Ha entre o céo e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã philanthropia». Alli andou dedo de amor. E não chasqueava nem lastimava nada. Já disse que era sceptico; mas, como era tambem discreto, não transmittiu a ninguem a sua conclusão.


[CAPITULO CLXIX]