—De que vale tudo isto? perguntou Theophilo á mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cançadas, longas horas da noite até madrugada, ás vezes... Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você é testemunha que eu trabalho. Tudo para que?

—Consola-te trabalhando, murmurou ella.

Elle, acerbo:

—Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na camara, todos me consultam, até os ministros—porque sabem que eu applico-me deveras ás cousas da administração. Que premio? Vir para cá, em maio, applaudir os novos senhores?

—Pois não applaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obsequio? Vamos á Europa, em março ou abril, e voltemos d'aqui a um anno. Pede licença á camara, d'onde quer que estejamos,—de Varsovia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsovia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sae amanhã. Está dito; vamos a Varsovia?

—Não brinques, Nanan, que isto não é objecto de brincadeira.

—Falo seriamente. Já ha muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descança desta papelada infernal. É demais, Theophilo! Você mal se pode arranjar depois para uma visita. Passeio, é raro. Quasi não conversa. Os nossos filhos mal veem seu pae, porque aqui não se entra quando você trabalha... É preciso descançar; peço-lhe um anno de repouso. Olhe que é serio. Vamos para a Europa em março.

—Não pode ser, balbuciou elle.

—Porque não?

Não podia ser. Era convidal-o a sahir da propria pelle. Politica valia tudo. Que tambem houvesse politica lá fora, sim; mas que tinha elle com ella? Theophilo não sabia nada do que ia por fora, excepto a nossa divida em Londres, e meia duzia de economistas. Comtudo, agradeceu á mulher a intenção da proposta: