—Eu ainda quiz dar o braço ao homem, e trazel-o para aqui; mas, tive vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque elle podia conhecer-me. Coitado! Nota que não parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria... Que triste cousa que é perder o juizo!
A mulher pensava na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu á visinha que não alludisse a ella, e, de noite, só pregou olho tarde. Mettera-se-lhe em cabeça que, annos depois, o filho endoudecia, era castigado pela mesma troça, e que ella cuspia para o céu, indignada, blasphemando.
[CAPITULO CLXXXIV]
Duas horas depois da scena da rua da Ajuda chegou Rubião á casa de D Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os claros não se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses em um berro unico e formidavel. Rubião continuou sosinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuia ou mudava de feitio. Não fallava para o lado da parede, á supposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquelle veo, atravez do qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de resposteiro. Rubião seguia direito á sala do throno, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminavel, cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes,—e por entre alabardeiros, altos e robustos.
Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janellas, muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preoccupações do dia, os tedios, os resentimentos, este uma divida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias de amigo. Cada miseria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento durava um relampago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços sumptuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao ceu a parte que lhe coube,—amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcaçar phantasmagorico.
[CAPITULO CLXXXV]
Rubião foi recolhido a uma casa de saude. Palha esquecera a obrigação que Sophia lhe impoz, e Sophia não se lembrou mais da promessa feita á rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa, um palacete em Botafogo, cuja reconstrucção estava prestes a acabar, e que elles queriam inaugurar, no inverno, quando as camaras trabalhassem, e toda a gente houvesse descido de Petropolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubião deu entrada no estabelecimento, onde ficou occupando uma sala e um quarto especiaes, recommendado pelo Dr. Falcão e pelo Palha. Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação, e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito. Quando elles se despediram, dizendo que já voltavam, Rubião convidou-os para uma revista militar, no sabbado.
—Pois sim, sabbado, assentiu Falcão.