[CAPITULO XXIV]

Rubião tinha vexame, por causa de Sophia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia á vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um principio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em obsequios; Rubião desceu meio tonto.


[CAPITULO XXV]

Jantou lá muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que elle não podia extinguir. Emquanto durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia, não podia testar, o nosso Rubião distrahiu-se; mas a denuncia foi destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos tres, o advogado, o procurador e o escrivão. Sophia tinha nesse dia os mais bellos olhos do mundo.


[CAPITULO XXVI]

—Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou Rubião, descendo o morro; nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o ás lojas e leilões. Ás vezes, como já sabemos, iam os tres; porque ha cousas, dizia graciosamente Sophia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando, demonstrando.