[CAPITULO XXVII]
Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigação do todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.
[CAPITULO XXVIII]
—Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança, como ninguem... Que tentações são estas?
Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo, differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:
—É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não resisto.
Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquella perseguição.
—Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.
O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta novamente com a mesma alegria.