—Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o ultimo golo de café, e lançando um ultimo olhar á bandeja.

Me parece que si.

—Lá vou soltal-o.

Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os moveis. Vendo as pequenas gravuras inglezas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou na bella Sophia, mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf, ao centro da sala, olhando para longe...

—Foi ella que me recommendou aquelles dous quadrinhos, quando andavamos os tres, a ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto della são os hombros, que vi no baile do coronel. Que hombros! Parecem de cera; tão lisos, tão brancos! Os braços tambem; oh! os braços! Que bem feitos!

Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Sentia que não era inteiramente feliz; mas sentia tambem que não estava longe a felicidade completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não ser esta, que ella o amava, e que o amava muito. Não era velho; ia fazer quarenta e um annos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observação foi acompanhada de um gesto; passou a mão pela cara, barbeada todos os dias, cousa que não fazia d'antes, por economia e desnecessidade. Um simples professor! Usava suissas, (mais tarde deixou crescer a barba toda),—tão macias, que dava gosto passar os dedos por ellas... E recordava assim o primeiro encontro, na estação de Vassouras, onde Sophia e o marido entraram no trem da estrada de de ferro, no mesmo carro em que elle descia de Minas; foi alli que achou aquelle par de olhos viçosos, que pareciam repetir a exhortação do propheta: Todos vós que tendes sede, vinde ás aguas. Não trazia ideias adequadas ao convite, é verdade; vinha com a herança na cabeça, o testamento, o inventario, cousas que é preciso explicar primeiro, afim de entender o presente e o futuro. Deixemos Rubião na sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na bella Sophia. Vem commigo, leitor; vamos vel-o, mezes antes, á cabeceira do Quincas Borba.


[CAPITULO IV]

Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memorias posthumas de Braz Cubas, é aquelle mesmo naufrago da existencia, que alli apparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma philosophia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viuva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida; mas, tão acanhada que os suspiros do namorado ficavam sem echo. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão della, que é o presente Rubião, fez todo o possivel para casal-os. Piedade resistiu, um pleuriz a levou.

Foi esse trechosinho de romance que ligou os dous homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquelle grãosinho de sandice, que um medico suppoz achar-lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãosinho não se despegou do cerebro de Quincas Borba,—nem antes, nem depois da molestia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera alli alguns parentes, mortos já agora em 1867; o ultimo foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o unico amigo do philosopho. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, mettera hombros a algumas emprezas, que foram a pique.