Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco mezes, perto de seis. Era real o desvello de Rubião, paciente, risonho, multiplo, ouvindo as ordens do medico, dando os remedios ás horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornaes, logo que chegava a mala da Côrte ou a de Ouro-Preto.
—Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.
—Grande façanha! Como se você fosse máo!
A opinião ostensiva do medico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o medico até á porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais afflictiva pela certeza...?
—La isso, não, atalhou Rubião; para elle, morrer é negocio facil. Nunca leu um livro que elle escreveu, ha annos, não sei que negocio de philosophia...
—Não; mas philosophia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus.
[CAPITULO V]
Rubião achou um rival no coração do Quincas Borba,—um cão, um bonito cão, meio tamanho, pello côr de chumbo, malhado de preto. Quincas Borba levava-o para toda parte, dormiam no mesmo quarto. De manhã, era o cão que acordara o senhor, trepando ao leito, onde trocavam as primeiras saudações. Uma das extravagancias do dono foi dar-lhe o seu proprio nome; mas, explicava-o por dous motivos, um doutrinario, outro particular.
—Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o principio da vida e reside em toda a parte, existe tambem no cão, e este póde assim receber um nome de gente, seja christão ou mussulmano...