—Bem, mas porque não lhe deu antes o nome de Bernardo, disse Rubião com o pensamento em um rival politico da localidade.
—Esse agora é o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobrevivirei no nome do meu bom cachorro. Ris-te, não?
Rubião fez um gesto negativo.
—Pois devias rir, meu querido. Porque a immortalidade é o meu lote ou o meu dote, ou como melhor nome haja. Vivirei perpetuamente no meu grande livro. Os que, porém, não souberem ler, chamarão Quincas Borba ao cachorro, e...
O cão, ouvindo o nome, correu á cama. Quincas Borba, commovido, olhou para Quincas Borba:
—Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu unico amigo!
—Unico!
—Desculpa-me, tu tambem o és, bem sei, e agradeço-te muito; mas a um doente perdoa-se tudo. Talvez esteja começando o meu delirio. Deixa ver o espelho.
Rubião deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o olhar febril, com que descobria os suburbios da morte, para onde caminhava a passo lento, mas seguro. Depois, com um sorriso pallido e ironico:
—Tudo o que está cá fóra corresponde ao que sinto cá dentro; vou morrer, meu caro Rubião... Não gesticules, vou morrer. E que é morrer, para ficares assim espantado?