—Sei, sei que voce tem umas philosophias... Mas fallemos do jantar; que hade ser hoje?

Quincas Borba sentou-se na cama, deixando pender as pernas, cuja estraordinaria magreza se adivinhava por fóra das calças.

—Que é! que quer? acudiu Rubião.

—Nada, respondeu o enfermo sorrindo. Umas philosophias! Com que desdem me dizes isso! Repete, anda, quero ouvir outra vez. Umas philosophias!

—Mas não é por desdem... Pois eu tenho capacidade para desdenhar de philosophias? Digo só que você póde crêr que a morte não vale nada, porque terá razões, principios...

Quincas Borba procurou com os pés as chinellas; Rubião chegou-lh'as; elle calçou-as e poz-se a andar para esticar as pernas. Affagou o cão e accendeu um cigarro. Rubião quiz que se agazalhasse, e trouxe-lhe um fraque, um collete, um chambre, um capote, á escolha. Quincas Borba recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agora; os olhos mettidos para dentro viam pensar o cerebro. Depois de muitos passos, parou, por alguns segundos, deante de Rubião.


[CAPITULO VI]

—Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó.

—Como foi?