—Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o habito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm, e até rapazes solteiros, não ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim; naturalmente, porque não sou feia... Para que estás andando assim de um lado para outro? Pára, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...
—Ah! não? accudiu vivamente o marido.
—Não, mas vem a dar na mesma.
E depois de contar o que se passara no jardim, desde que alli chegaram os dous, até que o major appareceu:
—Foi só isso, concluiu; mas é bastante para ver que se elle não disse amor é porque não lhe chegou a lingua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos... Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta,—ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?
Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ella a modo de estupido. Sentou-se no canapé, mas não fallou logo. Considerava o negocio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a captivar um homem,—e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto no Rubião, que o bilhete que Sophia mandara a este, acompanhando os morangos, foi redigido por elle mesmo; a mulher limitou-se a copial-o, assignal-o e mandal-o. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguem, menos ainda a Sophia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ella muita vez, é certo; parece tambem que Sophia, em algumas occasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, emfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios delles. Não havia de ter ciumes do nervo optico, ia pensando o marido. Sophia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a tranca cahida. Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão, rindo:
—Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça ás estrellas, e as estrellas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se póde fazer á vista de todos, em familia, e em prosa ou verso para o publico. A culpa é de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que elle é ainda matuto...
—Então o diabo tambem é matuto, porque elle pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de que as nossas almas se encontrassem?
—Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma candida. É assim que as moças fallam aos quinze annos; é assim que fallam os tolos em todos os tempos, e os poetas tambem; mas elle nem é moça nem poeta.
—Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?