Rubião despediu-se. No corredor passou por elle uma senhora alta, vestida de preto, com um arruido de seda e vidrilhos. Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que até então:—Oh! senhora baroneza!

No primeiro degráo parou. A voz argentina da senhora começou a dizer as primeiras palavras; era uma demanda... Baroneza! E o nosso Rubião ia descendo a custo, de manso, para não parecer que ficára ouvindo. O ar mettia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa de tontear, o aroma deixado por ella. Baroneza! Chegou á porta da rua; viu parado um coupê; o lacaio, em pé, na calçada, o cocheiro na almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tedio. Mas o caso particular é que elle, Rubião, sem saber porque, e apezar do seu proprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...


[CAPITULO LXIII]

Na rua, encontrou Sophia com uma senhora edosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições desta; todo elle foi pouco para Sophia. Fallaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou adeante, e olhou para traz; mas as tres senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantar, comsigo:

—Irei lá hoje?

Reflexionou muito sem adeantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo exquisito; mas lembrava-se que sorriu,—pouco, mas sorriu. Poz o caso á sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veiu logo um tilbury da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Thereza. Mas aqui a consciencia reagiu; queria os proprios termos da proposta: um carro. Tilbury não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma victoria... D'ahi a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.


[CAPITULO LXIV]

Sophia deu-lhe a mão gentilmente, sem sombra de rancor. As duas senhoras do passeio estavam com ella, em trajes caseiros; apresentou-as. A moça era prima, a velha era tia,—aquella tia da roça, autora da carta que Sophia recebeu no jardim das mãos do carteiro, que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma fazendola, alguns escravos e dividas, que lhe deixára o marido, alem das saudades. A filha era Maria Benedicta,—nome que a vexava, por ser de velha, dizia ella; mas a mãe retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes adequados ás pessoas eram cousas de poetas e contadores de historias. Maria Benedicta era o nome da avó della, afilhada de Luiz de Vasconcellos, o vice-rei. Que queria mais?