Contaram isto ao Rubião, sem que ella se vexasse. Sophia, ou por attenuar o caso, ou por outro motivo, accrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedicta era lindissimo.

—Não lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.

—Deixa de caçoada, prima! acudiu Maria Benedicta, rindo.

Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,—a velha, porque começava a cochilar,—Rubião porque affagava um cãosinho que tinham dado a Sophia, pequeno, delgado, leve, boliçoso, olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, elle respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedicta deu um muchocho. Em verdade, não era bonita; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem d'essas boccas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mãos grandes, grandes olhos attonitos quando escutavam somente, mas que sabiam fallar, se a bocca fallava tambem,—ahi fica o principal das feições da moça. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoherencias do vestido.

Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguassú. De longe em longe vinha á cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava anciosa por tornar a casa. A educação foi summaria: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos ultimos tempos (ia em dezenove annos), Sophia apertou com ella para apprender piano; a tia consentiu; Maria Benedicta veiu para a casa da prima, e alli esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que annunciou n'ella, desde os primeiros dias, um grande talento musical.

—Oh! sem duvida, um grande talento!

Maria Benedicta riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pode ver a serio o homem. Ás vezes, no meio de uma licção, deitava a rir; Sophia contrahia as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a licção. Nem piano nem francez,—outra lacuna, que Sophia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não comprehendia a consternação da sobrinha. Para que francez? A sobrinha dizia-lhe que era indispensavel para conversar, para ir ás lojas, para ler um romance...

—Sempre fui feliz sem francez, respondia a velha; e os meia-linguas da roça são a mesma cousa: não vivem peior que os creoulos.

Um dia accrescentou:

—Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Póde casar, já lhe disse que póde casar quando quizer, que eu tambem casei; e até deixar-me na roça, sosinha, morrer como uma besta velha...