Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para elle. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do proprio Quincas Borba,—ou antes do outro Quincas Borba, cujo espirito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdem; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capitulo XLIX, estendeu a mão, e coçou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,—acto proprio a dar satisfação ao possivel espirito do finado.

Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem publico, deante de si mesmo.


[CAPITULO LXXX]

Mas a voz repetiu:—E porque não? Sim, porque não havia de casar, continuou elle raciocinando. Mataria a paixão que o ia comendo aos poucos, sem esperança nem consolação. Demais, era a porta de um mysterio. Casar, sim, casar logo e bem.

Estava ao portão, quando esta idéa começou a abotoar;—foi dalli para dentro, subindo os degráos de pedra, abrindo a porta, sem consciencia de nada. Ao fechar a porta, é que um pulo do Quincas Borba, que o viera acompanhando, fel-o dar por si. Onde ficara o major? Quiz descer para vel-o, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar até á rua. As pernas tinham feito tudo; ellas é que o levaram por si mesmas, direitas, lucidas, sem tropeço, para que ficasse á cabeça tão sómente a tarefa de pensar. Boas pernas! pernas amigas! muletas naturaes do espirito!

Santas pernas! Ellas o levaram ainda ao canapé, estenderam-se com elle, devagarinho, emquanto o o espirito trabalhava a ideia do casamento. Era um modo de fugir a Sophia; podia ser ainda mais alguma cousa.

Sim, podia ser tambem um modo de restituir á vida a unidade que perdera, com a troca do meio e da fortuna; mas esta consideração não era propriamente filha do espirito nem das pernas, mas de outra causa, que elle não distinguia bem nem mal, como a aranha. Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. O gato, que nunca leu Kant, é talvez um animal metaphysico. Em verdade, o casamento podia ser o laço da unidade perdida. Rubião sentia-se disperso; os proprios amigos de transito, que elle amava tanto, que o cortejavam tanto, davam-lhe á vida um aspecto de viagem, em que a lingua mudasse com as cidades, ora hespanhol, ora turco. Sophia contribuia para esse estado; era tão diversa de si mesma, ora isto, ora aquillo, que os dias iam passando sem accôrdo fixo, nem desengano perpetuo.

Rubião não tinha que fazer; para matar os dias longos e varios, ia as sessões do jury, á camara dos deputados, á passagem dos batalhões, dava grandes passeios, fazia visitas desnecessarias, á noite, ou ia aos theatros, sem prazer. A casa era ainda um bom repouso ao espirito, com o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no ar.

Ultimamente, occupava-se muito em ler; lia romances, mas só os historicos de Dumas pae, ou os contemporaneos de Feuillet, estes com difficuldade, por não conhecer bem a lingua original. Dos primeiros sobravam traducções. Arriscava-se a algum mais, se lhe achava o principal dos outros, uma sociedade fidalga e régia. Àquellas scenas da côrte de França, inventadas pelo maravilhoso Dumas, e os seus nobres espadachins e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet, mettidos em estufas ricas, todos elles com palavras mui compostas, polidas, altivas ou graciosas, faziam-lhe passar o tempo ás carreiras. Quasi sempre, acabava com o livro cahido e os olhos no ar, pensando. Talvez algum velho marquez defuncto lhe repetisse anedoctas de outras eras.